Brasil
Queimadas na Amazônia aumentam em 23% as internações por causas respiratórias, mostra estudo
Pesquisa mostra também aumento de 21% por problemas cardiovasculares; situação preocupa em ano de El Niño.
Fumaça encobre a cidade de Manaus. (Foto:Paulo Santos/Reprodução)
O fogo das queimadas e dos grandes incêndios em áreas naturais consome florestas, campos e a saúde do brasileiro. Nos dias de queimadas mais intensas na Amazônia, por exemplo, há um aumento de 23% de internações por causas respiratórias e 21% por cardiovasculares em todo o Brasil, alertam cientistas.
O dado está numa revisão da literatura científica sobre o tema publicada esta semana e surge num momento em que se adverte que um El Niño muito forte deve atingir o país no segundo semestre deste ano e, com ele, o aumento do risco do fogo.
A mesma análise destaca ainda que, em anos de seca intensa, estima-se que até 10% das mortes prematuras por poluição do ar no Brasil sejam atribuíveis a emissões de incêndios florestais.
Realizada por pesquisadores do Projeto de Saúde Única e Meio Ambiente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal de Goiás (UFG), a revisão analisou 108 artigos científicos publicados entre 1986 e 2023. Foram identificados 41 desfechos de saúde distintos associados à perda de floresta e às queimadas na região.
Por desfechos se entendem doenças respiratórias, cardiovasculares, mortes precoces e baixo peso ao nascer, por exemplo, explica Pedro Novaes, um dos autores do trabalho, publicado na revista Acta Amazonica.
“Embora existam muitos estudos sobre impactos na saúde do desmatamento e das queimadas na Amazônia, não havia uma visão integrada. E mesmo assim, é preciso mais pesquisa. A visão ainda é incompleta, fragmentada. Mas fica evidente que o maior impacto direto para o brasileiro é na saúde”, frisa Novaes.
E os cientistas destacam que diminuir queimadas e desmatamento tem benefícios mensuráveis de saúde. Mas, como mortes e internações se distribuem longe da fonte do fogo, isso cria uma falha estrutural. As políticas de combate a incêndio tendem a ser locais e regionais, enquanto o dano à saúde é distribuído em escala nacional e, por vezes, continental.
Na Amazônia propriamente dita os principais danos à saúde associados ao desmatamento e às queimadas se referem à malária, doença recorrente na região da floresta. Segundo um dos estudos revisados, cada aumento de 1% na área desmatada de um município da Amazônia brasileira esteve associado a um crescimento de 14,5% a 23,2% na incidência de malária.
Já a fumaça poluente das queimadas atravessa fronteiras na América do Sul e sobrecarrega sistemas de saúde de outros países.
Nos dias de chamadas “ondas de incêndio” — o pico máximo, que se refere a 1% dos dias de queima mais intensa da série histórica e de dispersão de partículas MP2,5 — ocorrem 23% a mais de internações respiratórias e 21% a mais de internações cardiovasculares em nível nacional.
Na Região Norte os percentuais são ainda maiores: 38% e 27%, respectivamente.
O dado filtra os dias extremos e os separa de queimadas que frequentemente acontecem na estação seca. Ele se atém aos episódios mais graves de fumaça e fogo combinados, que representam o pior cenário de exposição da população, explica Novaes.
É justamente nesses dias extremos (não em dias comuns de seca) que o estudo encontrou o salto de 23% a mais em internações respiratórias e 21% a mais em cardiovasculares em todo o Brasil.
Além disso, estima-se que, na época de queimadas de 2019, cerca de 5.000 mortes prematuras (10% de todas as mortes prematuras atribuídas à poluição naquele ano no Brasil) ocorreram devido à exposição à fumaça de incêndios na Amazônia.
E, segundo o estudo, caso o Brasil tivesse cumprido as metas de redução do desmatamento entre 2013 e 2020, a melhora na qualidade do ar teria evitado cerca de 2.300 mortes relacionadas à poluição do ar pelos incêndios em 2020.
Por outro lado, a pesquisa mostra que uma redução de 40% nas taxas de desmatamento (pós-2004) teria evitado cerca de 1.060 mortes prematuras de adultos por ano na América do Sul como um todo, via melhora do ar.
O desmatamento quase sempre está associado a uma queima posterior, para eliminar os remanescentes florestais que tenham sobrevivido.
Portanto, o combate da destruição da vegetação é um benefício que se estende para além da própria Amazônia.
Mas calcula-se que cada quilo adicional de MP2,5 na Amazônia gera 21 novos casos de doença respiratória/cardiovascular na região. A sigla MP2,5 se refere a material particulado com diâmetro menor que 2,5 micrômetros, cerca de 30 vezes mais fino que um fio de cabelo.
Este é o poluente mais associado à fumaça de queimadas, porque é pequeno o suficiente para penetrar os pulmões e entrar na corrente sanguínea. Ele é o principal componente da fumaça de biomassa (queima de vegetação, floresta, pastagem).
A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera um limite de até 5 µg/m³. Mas durante picos de queimada na Amazônia, algumas cidades já registraram valores acima de 150–200 µg/m³ em dias críticos.
Além disso, como essa fumaça é dispersada pela atmosfera e alcança outras regiões “as áreas afetadas não são necessariamente as mesmas onde ocorrem as queimadas”. A poluição viaja e atinge populações urbanas distantes, o que complica a formulação de políticas de saúde regionalizadas.
As crianças menores de 4 anos e os idosos aparecem como os grupos mais afetados por hospitalizações associadas à fumaça, mesmo fora da Amazônia.
“É um problema de ampla escala e que impacta os grandes centros urbanos do país”, diz Novaes.
Falhas no combate
O trabalho identifica falhas nas políticas públicas e diz que as mudanças no uso da terra na Amazônia são um fator crítico de vulnerabilidade à saúde pública. Os autores afirmam que há necessidade urgente de modelos analíticos integrados e políticas multissetoriais dentro da abordagem de Saúde Única (humana e ambiental). Eles destacam os seguintes pontos:
Fiscalização insuficiente: órgãos ambientais (como Ibama e ICMBio) mencionados como subdimensionados frente à extensão do território e à escala das queimadas, dificultando prevenção e resposta rápida.
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Descoordenação entre esferas de governo: falta de integração entre políticas federais, estaduais e municipais de combate a incêndios e de monitoramento ambiental.
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Lacunas no monitoramento da saúde: ausência de um sistema robusto e integrado de vigilância epidemiológica que correlacione diretamente picos de queimadas com atendimentos de saúde em tempo real.
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Planos de contingência tardios ou reativos: as políticas de combate às queimadas tendem a ser emergenciais (resposta ao fogo já instalado) em vez de preventivas (fiscalização do uso do fogo, alternativas ao manejo por queima).
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Descontinuidade orçamentária: cortes ou instabilidade de recursos destinados a órgãos de fiscalização e combate a incêndios, comprometendo ações de prevenção ano a ano.
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Fragilidade na comunicação de risco à população: falta de alertas claros e sistemáticos sobre qualidade do ar para orientar grupos vulneráveis em cidades atingidas pela fumaça, mesmo distantes da origem das queimadas.
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Falta de políticas estruturantes para populações mais vulneráveis: prevenção específica para crianças e idosos, para grupos indígenas e controle do uso de fogo como fonte de energia e na agricultura familiar.
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