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Microplásticos são encontrados em girinos da Amazônia pela 1ª vez nas Américas, aponta estudo

Estudo identifica partículas nos anfíbios que vivem em lagoas temporárias da floresta; descoberta alerta sobre o alcance da poluição em áreas preservadas.

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Microplásticos são encontrados em girinos da Amazônia pela 1ª vez nas Américas — Foto: Bruno Ferreira e Fabrielle Barbosa de Araújo

Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) detectaram microplásticos em girinos da Amazônia pela primeira vez nas Américas. A descoberta revela que a poluição plástica atinge até ambientes temporários formados no interior da floresta. Os cientistas coletaram as amostras em poças ocasionais dentro de um local preservado.

O resultado amplia as evidências de que os microplásticos já se disseminaram em praticamente todos os ecossistemas do planeta, inclusive em áreas conservadas.

A bióloga Fabrielle Barbosa de Araújo, autora principal da pesquisa, afirma que a ciência ainda estuda pouco os ambientes temporários em relação à contaminação por microplásticos.

“Esses locais funcionam como importantes berçários para diversas espécies, incluindo os anfíbios. Como se formam em áreas florestais, os mecanismos de entrada dos microplásticos são diferentes daqueles observados em rios e lagos permanentes”, explica a bióloga.

A pesquisa destaca que as florestas atuam como reservatórios temporários dessas partículas. O vento ou a água transportam os microplásticos, que ficam retidos no solo e na matéria orgânica. Durante os períodos chuvosos, os resíduos acabam chegando às poças e lagoas.

Como ocorre esse contato?

A ingestão acidental pelos girinos representa a forma mais comum de exposição. Os animais confundem as pequenas partículas plásticas com alimento ou consomem organismos já contaminados, o que incorpora os microplásticos ao longo da cadeia alimentar.

No entanto, essa não é a única forma de contaminação.

“Partículas plásticas podem se acumular nas brânquias ou aderir à pele, interferindo em funções fisiológicas importantes”, afirma Fabrielle.

Na fase larval, os anfíbios respiram por brânquias, que permanecem em contato constante com a água. Além disso, eles possuem uma pele altamente permeável, o que os torna vulneráveis às alterações ambientais.

Impactos do plástico nos animais

A bióloga relata que os principais impactos aos girinos incluem alterações no sistema digestório, danos aos tecidos, mudanças comportamentais, além de prejuízos ao crescimento e ao desenvolvimento. Os efeitos podem chegar ao nível celular e causar danos ao DNA. Os cientistas também alertam para os riscos durante a metamorfose, fase em que o girino se transforma em animal adulto.

“Os microplásticos apresentam potencial de bioacumulação, ou seja, podem permanecer retidos em órgãos e tecidos por longos períodos. Uma das questões que queremos investigar agora é se essas partículas conseguem atravessar a metamorfose e permanecer nos indivíduos adultos”, diz a pesquisadora.

O grupo de pesquisa já havia registrado a presença de microplásticos em duas espécies de sapos amazônicos (um arborícola e outro terrestre). Na ocasião, eles encontraram as partículas pela primeira vez nos pulmões desses animais.

Origem e concentração

Os pesquisadores não puderam determinar a origem exata das partículas, mas a predominância de fibras chamou a atenção no estudo. Esse tipo de material costuma estar associado a tecidos sintéticos, como poliéster, nylon e acrílico. Durante a lavagem de roupas, as peças liberam fibras microscópicas que podem percorrer grandes distâncias pelo vento ou pelos cursos d’água.

A área estudada fica dentro de um parque ecológico, mas possui comunidades próximas que ainda enfrentam limitações na coleta e no tratamento de esgoto. Essa falta de infraestrutura pode contribuir para a chegada dos contaminantes aos ambientes aquáticos.

A concentração de microplásticos na água das lagoas temporárias gerou outro resultado preocupante. Segundo Fabrielle, os níveis registrados se assemelham aos de áreas fortemente impactadas pela atividade humana.

Para a bióloga, o cenário demonstra que a Amazônia não está isolada dos efeitos da poluição plástica global.

“Mesmo áreas protegidas podem receber contaminantes vindos tanto de fontes locais quanto de regiões distantes. Isso mostra que estamos diante de um problema ambiental de escala global”, completa.

Alerta ambiental

A ciência considera os anfíbios como importantes biomonitores da qualidade ambiental. Por serem sensíveis às mudanças e utilizarem tanto habitats aquáticos quanto terrestres ao longo da vida, eles ajudam a revelar alterações que muitas vezes passam despercebidas.

A descoberta preocupa ainda mais porque este grupo já figura como o mais ameaçado entre os vertebrados do planeta. Compreender como os microplásticos afetam os anfíbios amazônicos ajuda na conservação dessas espécies e na avaliação da saúde dos ecossistemas da maior floresta tropical do mundo.


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