Brasil
Assessor de Trump pede agenda com Itamaraty após questionamento de Moraes
Beattie havia solicitado ao Itamaraty o visto de entrada no Brasil na semana passada, mas não fez nenhum movimento adicional para se encontrar com representantes do atual governo brasileiro.
Após a repercussão do pedido de visita do enviado de Trump ao Brasil, Darren Beattie, ao ex-presidente Jair Bolsonaro na Prisão da Papudinha, em Brasília, o diplomata dos EUA fez ontem, por meio da embaixada americana em Brasília, um pedido de reunião com diplomatas brasileiros no Itamaraty. As informações são de Mariana Sanches, colunista do UOL.
Até então, nem Beattie nem o órgão diplomático dos EUA tinham entrado em contato com o Ministério de Relações Exteriores, com o Planalto ou com outras pastas da Esplanada para pedir reuniões de trabalho para o enviado de Trump, recém-nomeado conselheiro-sênior para Políticas de Brasil do Departamento de Estado. A informação foi adiantada pela Folha de S. Paulo e confirmada pelo UOL.
Fontes diplomáticas de Brasil e EUA disseram à coluna que o pedido de agenda de Beattie ao Itamaraty aconteceu apenas depois que o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes pediu ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil “informações sobre a existência de agenda diplomática de Darren Beattie”.
A defesa de Bolsonaro havia requerido que Beattie fizesse uma visita entre os dias 16 e 17 de março, mas em sua decisão, Moraes autorizou o encontro na Papudinha no dia 18, entre às 8h e às 10h. Em resposta, a defesa de Bolsonaro pediu reconsideração de datas, alegando compromissos diplomáticos de Beattie.
Porém, governo brasileiro afirma que, ao menos até agora, tais compromissos diplomáticos em Brasília não existem. Auxiliares diretos do presidente Lula ouvidos reservadamente pela reportagem consideraram “o fim da picada” que Beattie tenha ignorado o Brasil e priorizado Bolsonaro em sua agenda. E veem na atuação do assessor uma clara tentativa de interferência no processo eleitoral do Brasil, em que o presidente Lula e o filho de Bolsonaro, Flávio, se firmam como os principais candidatos.
Beattie havia solicitado ao Itamaraty o visto de entrada no Brasil na semana passada, mas não fez nenhum movimento adicional para se encontrar com representantes do atual governo brasileiro.
A justificativa para a viagem de Beattie seria a participação dele em um fórum sobre terras raras, em São Paulo, promovido pela iniciativa privada (Amcham, Citi, Ibram) com apoio da Embaixada dos EUA no Brasil, no dia 18.
A possibilidade da viagem de Beattie vinha sendo discutida dentro da diplomacia dos EUA há algumas semanas e gerando tensão, já que Beattie é visto como um dos mais críticos integrantes da gestão Trump ao governo Lula e sua presença teria mais potencial de gerar atritos do que de construir entendimentos em torno dos temas relevantes aos dois países.
Proximidade com Eduardo
Beattie é muito próximo ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que sabia desde novembro do ano passado que o político de extrema direita Darren Beattie seria escolhido pelo governo Donald Trump como assessor especial para assuntos de Brasil no Departamento de Estado, o órgão de diplomacia de Washington.
Em 6 de novembro, em visita a Washington, Eduardo compartilhou com o UOL a informação sobre a promoção de Beattie, que atualmente também ocupa interinamente o posto de secretário assistente de Estado para assuntos educacionais e culturais.
Eduardo foi o responsável por uma campanha junto ao governo dos EUA para impor punições ao Brasil que pudessem impulsionar a anistia a seu pai, Jair Bolsonaro, no processo criminal em que foi condenado por tentativa de Golpe de Estado.
Boa parte dessas medidas, como o tarifaço e a sanção Magnitsky contra Alexandre de Moraes, foram mais tarde revertidas. O exparlamentar, porém, ainda mantém estreita interlocução com Beattie e outros integrantes do governo e os têm aproximado de seu irmão, o pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro, que esteve com Beattie em Washington no começo do ano.
No ano passado, antes de ser preso, o próprio Jair Bolsonaro entrou por videochamada em uma conversa com integrantes do Departamento de Estado, em Washington, entre os quais Beattie, e teria recebido tratamento de ídolo.
Conexões de Beattie
Darren Beattie é um nome ligado ao ex-deputado trumpista Matt Gaetz e foi subsecretário de Estado para a Diplomacia Pública na atual gestão Trump. No primeiro governo do republicano, Beattie costumava ser um dos autores dos discursos de Trump, e ficou conhecido da diplomacia brasileira pela pública verve ácida e ideológica.
Em sua conta no X, desde o início do atual governo, ele disparou uma série de notas contra o governo Lula e outras autoridades brasileiras, cujo tom foi identificado como “ameaçador” pela diplomacia do Brasil. Em uma delas, em agosto do ano passado, em publicação depois repostada em português pela Embaixada dos EUA no Brasil, Beattie afirmou que Moraes é “o principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro”.
“Os aliados de Moraes no Judiciário e em outras esferas estão avisados para não apoiar nem facilitar a conduta de Moraes. Estamos monitorando a situação de perto”, dizia o texto.
O posicionamento, visto por diplomatas brasileiros como “mafioso”, gerou protesto do governo Lula, que cobrou explicações do encarregado de negócios dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar.
O atual mal-estar em Brasília com Beattie tem precedente. Em maio do ano passado, a propósito de discutir parcerias contra o crime organizado e outros assuntos, uma delegação de diplomatas do governo Trump foi a Brasília.
Entre eles, estava Ricardo Pita, outro dos mais ideológicos diplomatas do órgão. Como primeiro compromisso na capital do Brasil, Pita foi até a casa de Bolsonaro, no condomínio Solar de Brasília. O governo Lula não estava informado sobre o movimento e manifestou protesto ao que considerou um desrespeito, dado que a visita havia sido construída e articulada junto aos diplomatas brasileiros.
Menos de dois meses depois, Trump decidiu impor tarifas de 50% sobre o Brasil sob a justificativa de perseguição política a Bolsonaro, e lançou os dois países em seu pior momento histórico em mais de 200 anos de relação.
A partir de setembro, porém, Lula e Trump operaram uma distensão na relação e o presidente brasileiro pretende visitar o homólogo americano em breve. Originalmente prevista para março, a visita do brasileiro à Casa Branca segue sem data definida ao mesmo tempo em que se acumulam notícias que desagradam o Brasil vindas de Washington.
A mais recente delas, revelada pelo UOL, foi a decisão do governo dos EUA de designar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, movimento ao qual o governo Lula se opõe. A diplomacia brasileira entrou em campo para tentar desarmar essa bomba ao menos até que os dois mandatários estejam frente a frente mais uma vez.
Ontem, Trump disse que achava que Lula tinha sido convidado para o encontro entre chefes de Estado conservadores que ele manteve em Miami no último fim de semana. Lula jamais foi convidado para tal evento, organizado pelo Departamento de Estado.
A diplomacia brasileira atualmente interpreta que, enquanto Trump vira os olhos para o Irã e a China, o segundo escalão de seu governo aproveita para tomar medidas que fustiguem o Brasil de Lula, mesmo sem a anuência do chefe.
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