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Brasil

Desmatamento na Amazônia custou US$ 1,1 bilhão ao ano em energia elétrica, diz estudo

O desmate reduz as chuvas que abastecem hidrelétricas estratégicas e dispara o despacho de térmicas com energia mais cara e poluente.

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Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA). (Foto:Reprodução)

O desmatamento da Amazônia encarece a eletricidade no Brasil e representa um risco estrutural para o setor elétrico. Nas últimas quatro décadas, se evitado, o corte da floresta teria poupado o consumidor brasileiro de perdas de até US$ 1,1 bilhão ao ano. O desmate reduz as chuvas que abastecem hidrelétricas estratégicas e dispara o despacho de térmicas com energia mais cara e poluente. As informações são do Valor Econômico.

Quase metade da geração de eletricidade no Brasil depende da energia hidrelétrica que se baseia em chuvas produzidas pela Amazônia. O vapor d’ água formado na evapotranspiração da floresta é transportado pelos “rios voadores” para o Centro e o Sul do Brasil e sustenta chuvas nas bacias da Amazônia e do Paraná, onde estão as hidrelétricas de Belo Monte e Itaipu. De 1985 para cá, foram desmatados 845 mil km2, o que enfraqueceu chuvas, restringiu a geração de energia e encareceu preços.

Nem todas as áreas da Amazônia contribuem igualmente para a segurança energética. Territórios indígenas localizados no arco do desmatamento — a região mais desmatada que vai do leste a oeste, formando um arco pelo sul da região — desempenham papel fundamental na proteção dos serviços hidrológicos. Somente as florestas do Parque Indígena do Xingu valem cerca de US$ 5 bilhões em energia hidrelétrica.

Estas são algumas constatações de um estudo feito por professores e pesquisadores de Economia da Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade, Rede PP&S. Formada em 2025, a Rede PP&S tem 14 pesquisadores associados de várias instituições —FEA/USP, FGV/SP, FGV/Rio, PUCRio e Insper — que buscam entender como a proteção ambiental pode impactar a produtividade e vice-versa.

“Energia das Florestas: os custos sociais do desmatamento para o setor energético brasileiro” é o primeiro trabalho do grupo de pesquisadores.

O estudo foi iniciado há ano e meio e estruturou uma “base de dados gigantesca”, nas palavras de um dos autores, Rafael Araujo, professor-assistente de Economia na Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP). À base de dados de desmatamento da Amazônia desde 1985, do MapBiomas, foram adicionados modelos de circulação atmosférica, bacias hidrográficas e a localização das hidrelétricas brasileiras.

“A ideia era ver quanto o desmatamento da Amazônia afeta a produção de energia hidrelétrica no Brasil”, explica. Ele lembra o artigo central do engenheiro agrônomo e climatologista Eneas Salati (morto em 2022) que quantificou a reciclagem da precipitação da Amazônia em 1979, a gênesis do fenômeno conhecido como “rios voadores”.

“Mostrava que a floresta podia afetar o clima em escala continental”, diz Araujo, estudioso da economia do desmatamento. “Existem muitas evidências de que a Amazônia afeta clima, temperatura, chuvas. Então, terá efeitos econômicos. Nosso trabalho olha especificamente para o impacto da geração de energia elétrica em hidrelétricas”, diz. “Queríamos colocar o valor econômico da floresta para o setor de energia no Brasil”.

O exercício principal colocado pelos pesquisadores foi perguntar-se o que aconteceria se a Amazônia não tivesse sido desmatada, de 1985 a hoje, e pudesse ser reflorestada. “Olhando apenas para o mercado de energia, esse desmatamento gera uma conta para todos os brasileiros na ordem de US$ 1 bilhão ao ano”, diz. “Quando não se tem energia elétrica para a demanda, começa-se a despachar com termelétricas, que são caras”.

O estudo mostra que a escassez de energia hidrelétrica associada ao corte da floresta redistribui rendas no mercado de eletricidade. Os geradores térmicos se beneficiam com US$ 130 milhões ao ano com o aumento do despacho e preços mais altos. Os produtores de energia hidrelétrica sofrem impactos desiguais — alguns ganham com o aumento dos preços e outros perdem com a redução da geração. “Se fosse para reflorestar, Belo Monte, Santo Antônio, Jirau e Tucuruí, ganhariam mais porque dependem muito da chuva que vem da Amazônia”, diz ele.

Outro ponto da análise é que nem todas as áreas da Amazônia contribuem igualmente para a segurança energética. As áreas de alto valor estão concentradas no arco do desmatamento.

A Amazônia, mostra o estudo, não é um ativo homogêneo. “A eficácia da conservação florestal depende não apenas de quanto é preservado, mas também de onde isso ocorre”, diz o texto. Um dos mapas mostra a floresta dividida em cinco regiões de igual valor hidrelétrico (US$ 23 bilhões em eletricidade), mas com grande variação de tamanho entre elas.

“É uma ferramenta para políticas públicas para identificar onde a conservação gera os maiores benefícios energéticos e econômicos”, diz o estudo. “Proteger o Parque Indígena do Xingu é essencial”, diz Araujo.

“Quem mais perde com o desmatamento da Amazônia, como esperado, é o consumidor”, conclui Araujo. “O custo do desmatamento para o setor de energia tem que estar no debate público. Reflorestar não tem a ver só com emissões de gases-estufa ou captura de carbono. Tem uma relação direta com o setor de energia”, diz.


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