Brasil
Brasileiro entra na Venezuela disfarçado para gravar documentário e acaba detido: ‘Ali começou o inferno’
Pietro Krauss teve a entrada no país negada outras duas vezes e foi detido nesta segunda-feira (12) ao tentar cruzar a fronteira de moto com um cidadão venezuelano.
O documentarista Pietro Krauss e o sócio, Pedro Paracampos, durante viagem para gravação de documentário — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução.
O documentarista brasileiro Pietro Krauss foi detido por autoridades venezuelanas nesta segunda-feira (12) ao tentar entrar no país pela fronteira com a Colômbia para gravar um projeto audiovisual. Segundo ele, a tentativa ocorreu após duas negativas formais e foi feita de moto, com a ajuda de um cidadão venezuelano e o uso de roupas comuns da região para se passar por morador local.
Krauss queria entrar na Venezuela com o sócio, o produtor Pedro Paracampos, para gravar o segundo episódio de um documentário sobre países que enfrentam crises econômicas e vivem conflitos. A primeira parte do projeto foi filmada na Argentina, em 2023.
O documentarista relatou que a dupla decidiu viajar para a Venezuela logo após os ataques dos Estados Unidos ao país, no dia 3 de janeiro. A operação militar resultou na prisão do ditador Nicolás Maduro, acusado pelo governo norte-americano de uma série de crimes.
Após o ataque, a Venezuela reforçou o controle nas fronteiras e passou a restringir o trabalho de profissionais da imprensa. Dezenas de jornalistas acompanham a situação do país a partir da cidade colombiana de Cúcuta, na fronteira com o território venezuelano.
Krauss contou que ele e Paracampos tentaram entrar na Venezuela pela primeira vez na quinta-feira (8), pouco depois de chegarem a Cúcuta. A tentativa foi feita de forma regular, pela imigração. O objetivo era seguir de carro até Caracas, mas a entrada foi negada por agentes venezuelanos.
“Disseram que a gente precisava de uma carta de indicação, uma espécie de carta-convite de um morador da Venezuela, que assume a responsabilidade pela pessoa”, afirmou.
A dupla acionou um amigo no país para providenciar o documento. Com a carta em mãos, eles tentaram novamente a entrada no domingo (11), mas o pedido foi recusado após uma entrevista que durou cerca de cinco horas.
Segundo Krauss, durante a entrevista, um agente venezuelano pediu acesso ao celular dele.
“Ele viu todas as fotos, invadiu completamente a minha privacidade. Foi extremamente grosso com a gente”, disse. “Ficou irritado quando falamos que não éramos jornalistas. Eu disse que era documentarista.”
A última tentativa de entrar na Venezuela ocorreu nesta terça-feira (12). Com a ajuda de um amigo venezuelano, eles planejaram atravessar a fronteira de moto.
A ideia era se passar por moradores locais, usando roupas comuns da região, para não serem identificados como estrangeiros. Segundo Krauss, o controle costuma ser menos rígido para cidadãos venezuelanos.
“Compramos roupas e óculos para passarmos despercebidos, porque quando as pessoas olham para a gente, sabem que somos de fora.”
Travessia
Krauss foi o primeiro a tentar cruzar a fronteira nesta terça-feira. Paracampos ficou na Colômbia, aguardando o retorno do amigo venezuelano que conduzia a moto. O plano, no entanto, não deu certo, já que o veículo foi parado para revista na imigração.
“Coincidentemente, o soldado que estava lá era um dos que tinha ficado com a gente na sala no dia anterior. Ele me reconheceu. Entreguei o passaporte e ali começou o inferno da minha vida”, contou.
Segundo o documentarista, o agente ficou irritado e passou a agir de forma agressiva. Krauss foi detido por tentar entrar ilegalmente no país e levado para uma unidade imigratória em San Antonio del Táchira, na Venezuela.
Ele afirmou ainda que os agentes suspeitaram que Paracampos já tivesse cruzado a fronteira e fizeram ameaças caso o encontrassem no país. “Disseram que, se achassem meu amigo na Venezuela, as coisas ficariam muito feias”, relatou.
A situação mudou quando Krauss mencionou o conselho de um policial que, no dia anterior, teria sugerido que a dupla tentasse entrar novamente. Ele foi levado para identificar o agente, que confirmou a versão diante dos superiores e acabou sendo duramente repreendido, segundo o documentarista.
“Não sei se ele fez isso para me salvar ou se realmente lembrou do que tinha dito. Mas, se não fosse isso, eu não teria saído de lá”, afirmou.
Expulsão
Após a liberação, Krauss foi escoltado até a fronteira e obrigado a retornar a pé para a Colômbia. Ele disse que foi formalmente banido da Venezuela e informado de que não poderá voltar ao país por vários anos. O profissional contou ainda que assinou documentos sem ler.
“Assinei tudo muito rápido. Eles tiraram várias fotos minhas e fizeram ligações na minha frente, deixando claro que não era para deixar esses dois brasileiros entrarem novamente”, disse.
Krauss afirmou ainda que teve dados apagados do celular.
“Ele apagou fotos, conversas, tudo. Material importante. Só consegui salvar coisas que já estavam na nuvem”, relatou.
Durante as tentativas de entrada, o documentarista disse ter percebido insinuações de suborno. Segundo ele, um agente afirmou que na Venezuela não precisavam de dinheiro estrangeiro, “a menos que quisessem dar”. Em outro momento, um policial teria pedido “plata”, ou dinheiro.
Abalado, Krauss afirmou que chegou ao hotel na Colômbia ainda tremendo e demorou a conseguir avisar a noiva, a atriz Sophia Valverde, e a família sobre o ocorrido. Ele e Paracampos passam bem e devem retornar ao Brasil nesta terça-feira (13).
Apesar da expulsão e da perda de material, Krauss disse que o documentário não será cancelado. O episódio sobre a Venezuela deve ser concluído com entrevistas feitas com venezuelanos na Colômbia e imagens obtidas por outros repórteres.
Por enquanto, ele afirma não cogitar novas tentativas de entrada no país, por medo de represálias e pela falta de segurança jurídica.
“Acho que a Venezuela deve ser um país muito bonito. Gostaria de conhecer como turista um dia, ver as praias e a capital. Mas agora não. Principalmente depois do que aconteceu.”
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