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Brasil está deixando a Amazônia virar “terra sem lei”, diz reportagem do Financial Times

Para analistas e ambientalistas, autoridades brasileiras alegam que fazem o suficiente para combater o desmatamento da região, mas aumento da violência dificulta qualquer esforço de preservação.

Área desmatada (Foto: Felipe Werneck)

O Brasil está deixando a Amazônia se tornar uma terra sem lei. Essa é a conclusão de uma reportagem publicada nesta segunda-feira (27) pelo jornal Financial Times. Segundo a reportagem, o assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista pernambucano Bruno Pereira mostra que o aumento da violência na região está diretamente ligado às tentativas de combate ao desmatamento na floresta amazônica. As informações são da revista Época Negócios.

Para analistas e ambientalistas ouvidos, as autoridades brasileiras continuam alegando que fazem o suficiente para combater o desmatamento da Amazônia. No entanto, na realidade, a violência na região só aumenta, dificultando qualquer esforço para preservá-la.

Segundo dados do Global Witness, o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos ligados ao direito à terra e questões ambientais, com a maioria deles ocorrendo na Amazônia. Entre 2012 e 2020, 317 assassinatos com essa classificação foram registrados no país. No estado do Amazonas, onde Phillips e Pereira foram mortos, o número de assassinatos aumentou mais de 50% no ano passado em relação a 2020. O resultado, inclusive, contrasta com uma queda de 7% nos homicídios em todo o país, informa o jornal.

Simultaneamente, o desmatamento na Amazônia disparou para sua maior alta em 15 anos. Todos os dias, uma floresta tropical equivalente em tamanho a 2 mil campos de futebol é arrasada, de acordo com o Imazon, grupo de monitoramento governamental sem fins lucrativos. Isso acontece apesar das promessas do governo no ano passado de acabar com o desmatamento ilegal até 2028.

Para muitos na comunidade internacional, essa mistura de crescente crime ambiental e violência é uma combinação tóxica. A OCDE disse que a adesão do Brasil ao grupo – um objetivo central do governo Bolsonaro – depende da contenção do desmatamento.

Para Bruno Carazza, professor da Fundação Dom Cabral, há uma conexão direta entre os cortes nos órgãos de fiscalização ambiental do Brasil, como o Ibama, e o crescente desmatamento e violência. “O assassinato de Phillips e Pereira não é um evento isolado. Há um problema crônico de segurança e justiça na região amazônica”, explica. “Precisamos que órgãos estatais imponham multas a atividades [ilegais] em áreas protegidas. Mas essas instituições estão sendo enfraquecidas com orçamentos menores, menos pessoal e a nomeação de chefes que não se preocupam com o meio ambiente”, conclui Carazza, em entrevista ao FT.

Segundo o jornal, o presidente Jair Bolsonaro já deu a entender que tolera grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais, que, segundo os ambientalistas, lideram a destruição da floresta. Para o presidente, diz o FT, a floresta deveria ser usada para ganhos comerciais – e “o resultado dessa retórica é um crescente senso de impunidade entre os atores ilegais, crescentes índices de desmatamento e crescente violência contra comunidades indígenas e ONGs”.

“O apoio de Bolsonaro a atividades predatórias serviu de estímulo – uma ‘licença branda’ – para apropriação de terras, mineração ilegal de ouro, desmatamento e violência”, disse ao FT Natalie Unterstell, presidente do Talanoa, um think-tank focado no meio ambiente.

O governo brasileiro argumenta que tem se esforçado para proteger o meio ambiente, com dados que apontam que quase 80% da matriz elétrica é renovável, além de uma preservação de mais de 65% da vegetação nativa, aponta o jornal.

Para Larissa Rodrigues, gestora do Instituto Escolhas, que investiga a mineração ilegal de ouro na Amazônia, tais argumentos têm pouca força quando colocados contra crimes ambientais violentos. “Os investidores agora verão que, se um renomado jornalista britânico não está seguro aqui, ninguém está, porque é o crime que controla a Amazônia”, afirmou ao FT.

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