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Madeira ilegal da Amazônia abastece mercados da UE e EUA, mesmo com leis de importação, aponta investigação
O relatório destacou que a madeira trafegou por 11 serrarias e 8 exportadoras, muitas já multadas por órgãos ambientais brasileiros.
Uma investigação internacional liderada pela agência Environmental Investigation Agency (EIA) revelou que madeira extraída de forma ilegal na Amazônia brasileira, incluindo dentro da Terra Indígena Munduruku, no Pará, foi exportada para mercados da União Europeia e dos Estados Unidos, apesar de legislação que proíbe a importação desse tipo de produto existir há mais de uma
década. As informações são da revista Veja.
O relatório Bootleggers, Brokers and Buyers, divulgado no final de janeiro de 2026, documenta como fraude, invasões de terras indígenas e supervisão governamental fraca permitiram que milhares de metros cúbicos de madeira tropical valiosa, como ipê e cumaru, simplesmente “entrassem” em cadeias internacionais de fornecimento.
O estudo traçou 25 000 m³ de madeira — equivalente a 830 contêineres — de áreas sob exploração ilegal até 11 importadores na França, Portugal, Alemanha e nos EUA.
Segundo a EIA, operações ilegais de extração se espalharam pelo Pará e envolveram ao menos quatro áreas, sendo uma dentro da Terra Indígena Munduruku, onde milhares de metros cúbicos de madeira foram retirados, apesar de não haver autorização para tal atividade.
A investigação utilizou dados de satélite, análises de documentos e entrevistas com especialistas para mapear o fluxo de madeira desde serrarias no Brasil até mercados estrangeiros.
O relatório destacou que a madeira trafegou por 11 serrarias e 8 exportadoras, muitas já multadas por órgãos ambientais brasileiros, antes de chegar aos mercados internacionais, um sinal de que a chamada “lavagem” de madeira ilegal acontece por meio de permissões ou documentação fraudada.
Tanto a UE quanto os EUA têm normas para barrar a entrada de madeira ilegal: o Regulamento da Madeira da UE (EUTR) e o Lacey Act nos EUA proíbem esse comércio e exigem diligência por parte de compradores.
Porém, de acordo com a investigação, aplicação e fiscalização dessas leis são insuficientes. No caso europeu, estudos da própria Comissão Europeia alertavam desde 2019 para o “risco extremamente alto” de importação de madeira amazônica sem garantia de legalidade, especialmente ipê, que é classificado sob proteção da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna (Cites).
Em 2025, a UE aprovou uma legislação mais rigorosa, o Regulamento sobre Desmatamento, mas sua implementação foi adiada novamente, agora para o final de 2026, em meio à pressão de grupos de lobby da indústria madeireira.
Nos Estados Unidos, a EIA também criticou cortes de recursos para a aplicação da lei ambiental que enfraquecem a capacidade de combate a importações ilegais, apesar de declarações públicas de defesa dos produtores domésticos.
A extração ilegal de madeira está em crescimento na Amazônia e se deslocando de áreas privadas para territórios que deveriam ser protegidos, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação.
Um levantamento recente do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex) mostra que houve um aumento de 44% da exploração ilegal em áreas protegidas entre 2023 e 2024, e que mais de 30% da madeira extraída na Amazônia naquele período era ilegal.
Outro estudo apontou que 62% da extração de madeira no estado do Amazonas não tem autorização dos órgãos ambientais, em um sinal da extensão da crise de fiscalização no setor.
Para povos indígenas como os Munduruku, a presença de madeireiros ilegais não é apenas uma questão econômica, mas uma ameaça direta à vida, à cultura e à integridade de seu território.
Em nota conjunta, organizações Munduruku denunciaram que produtos feitos com madeira oriunda dessas áreas representam mercadorias “com sangue indígena”, e exigiram ação imediata dos governos brasileiros e estrangeiros para bloquear esse comércio.
A EIA recomenda que o Brasil fortaleça a fiscalização, adote sistemas de rastreabilidade em tempo real e aumente recursos para monitorar invasões, enquanto a UE e os EUA devem investigar as importações identificadas para violações das suas próprias leis e implementa
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