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Depoimentos sobre violência policial nos protestos sacodem Cuba, e artista opositor é levado a prisão

Um relatório da ONG Human Rights Watch publicado nesta quarta-feira indica que o governo cubano comete violações sistemáticas de direitos humanos contra artistas e jornalistas.

Dez dias depois da onda de protestos que sacudiram Cuba, o governo continua sem dar um número oficial de detidos, embora várias fontes afirmam que são centenas, a maioria jovens. Pouco a pouco alguns dos presos foram sendo libertados, alguns com medidas de prisão domiciliar e aguardando julgamento e outros sem acusações. Vários deram depoimentos sobre o ocorrido e denunciaram abusos policiais e violência excessiva nas ruas e nas delegacias. As informações são dos sites dos jornais El País e O Globo.

Nesta quarta-feira, o Movimento San Isidro, um dos que convocaram os protestos, denunciou que o artista visual Luis Manuel Otero Alcántara, líder do grupo, foi levado para uma prisão de segurança máxima em Guanajay. Na semana passada, a diretora da Anistia Internacional para as Américas, Erika Guevara-Rosas, disse que Otero Alcántara sofre as mesmas acusações que o músico Maykel Osorbo, preso há dois meses por supostos casos de atentado, resistência e desordem pública. “Ambos são uma ameaça para um governo violador dos direitos humanos. Exigimos sua liberdade”, disse a advogada defensora de direitos humanos pelo Twitter.

Embora a internet continue cortada ou funcionando mal, aos poucos foram circulando vídeos nas redes sociais que documentam os protestos, na maioria pacíficos, mas também outros que derivaram em distúrbios e saques de lojas. As autoridades afirmam que mais de 50 estabelecimentos foram vandalizados e advertem que os autores serão julgados com todo o rigor.

Em um desses vídeos, gravados pelos próprios manifestantes com seus celulares, pode-se ver como um comandante histórico, Ramiro Valdés, que foi duas vezes ministro do Interior, foi vaiado e obrigado a se retirar em meio a gritos de “liberdade” na localidade de Palma Soriano, no Leste do país. Na cidade de Cárdenas, em Matanzas, epicentro da pandemia neste momento, as pessoas viraram carros da polícia e até o veículo do secretário do Partido Comunista, algo absolutamente inédito.

Há um denominador comum na maioria dos vídeos divulgados: a dureza da resposta policial e de civis apoiadores do governo armados com paus, em cenas de violência contra os manifestantes que estremeceram muitos cubanos. Ao lado disso, começaram a aparecer os primeiros depoimentos de jovens detidos que já foram libertados. Teve grande impacto nas redes sociais o relato de Leonardo Romero Negrín, um estudante universitário de 22 anos que foi preso no dia 11 de julho em frente ao Capitólio, onde o protesto foi maior.

Romero conta que saiu em defesa de um ex-aluno seu que estava sendo chutado pela polícia por filmar com seu celular.

A comoção provocada pelas imagens e depoimentos é considerável, e o próprio presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, já reconheceu que “se deveria pedir desculpas” se foram cometidos excessos contra inocentes, mas insistiu em considerar a maioria dos manifestantes como delinquentes, mercenários e “equivocados”. Ele acusou os Estados Unidos de estarem por trás do ocorrido e de manipular as redes sociais para dar uma imagem de ingovernabilidade na ilha.

Human Rights Watch denuncia perseguição

Um relatório da ONG Human Rights Watch publicado nesta quarta-feira indica que o governo cubano comete violações sistemáticas de direitos humanos contra artistas e jornalistas independentes, a maioria parte do Movimento San Isidro — coalizão de cantores, pintores e outros artistas dissidentes — e da organização 27N, formada após um protesto emblemático contra a censura e a repressão, realizado em 27 de novembro do ano passado, em Havana.

“ Cantar uma música que o governo não gosta ou relatar as notícias de forma independente são motivos suficientes para acabar na prisão em Cuba”, explicou José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da Human Rights Watch. “Esses abusos não são incidentes isolados; em vez disso, eles parecem fazer parte de um plano para silenciar seletivamente vozes críticas”.

Uma das vítimas é Iliana Hernández, jornalista do site independente Ciber Cuba, que enfrenta restrições constantemente desde 23 de abril. Naquele dia, quando estava indo para um ponto de ônibus com amigos, cinco policiais, três deles à paisana, detiveram-na e a forçaram a entrar em um carro da polícia. Hernández gritou: “Abaixo a ditadura! Abaixo o comunismo! Pátria e vida!” e foi levada a uma delegacia, onde foi acusada de desacato, por supostamente “ofender a figura do presidente Miguel Díaz-Canel”.

O policial disse a ela que seria submetida a uma “medida cautelar” e que seria proibida de sair de casa até o julgamento. Ela nunca foi formalmente notificada sobre a investigação, mas desde aquele dia, vários policiais vigiam sua casa, em turnos, 24 horas por dia.

Entre fevereiro e junho, a ONG entrevistou por telefone 29 jornalistas e artistas que sofreram assédio e violações de direitos humanos nos últimos meses por criticarem o governo. Em vários casos, a polícia e os agentes da Inteligência visitam regularmente as casas das vítimas e ordenam que permaneçam confinadas, muitas vezes por dias ou até semanas. As autoridades também restringiram temporária e seletivamente o acesso dessas pessoas a dados móveis em seus telefones, para limitar seu acesso à internet.

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