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Banco Mundial estima em US$ 19,6 bi os danos causados pelos terremotos na Venezuela, que completam 1 mês amanhã

Relatório aponta prejuízo equivalente a 18% do PIB do país e afirma que reconstrução pode levar até dez anos sem novos investimentos públicos e privados.

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O Banco Mundial estimou, nesta quinta-feira, 23, que os dois terremotos que devastaram a Venezuela em 24 de junho — e que completam um mês amanhã — provocaram aproximadamente US$ 19,6 bilhões (R$ 99 bilhões, na cotação atual) em danos físicos a moradias, edifícios e infraestrutura, o equivalente a cerca de 18% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Em uma avaliação preliminar, a instituição também defendeu a ampliação dos investimentos públicos e privados para acelerar a reconstrução.

Segundo o relatório, quase metade dos prejuízos, cerca de US$ 9,3 bilhões (R$ 47 bilhões), corresponde aos danos em moradias. Os edifícios não residenciais sofreram perdas de aproximadamente US$ 5 bilhões (R$ 25,3 bilhões), enquanto os danos à infraestrutura somaram US$ 5,2 bilhões (R$ 26,3 bilhões).

Pelo menos 5.398 pessoas morreram em decorrência dos terremotos do mês passado, segundo o balanço oficial mais recente, enquanto 16.740 ficaram feridas. Os dois fortes tremores atingiram a região centro-norte da Venezuela com apenas 39 segundos de intervalo, destruindo centenas de edifícios e comprometendo os sistemas de fornecimento de energia elétrica e água.

Os estados de La Guaira e o Distrito Capital, onde fica Caracas, concentraram 47% dos danos identificados, seguidos por Miranda e Carabobo. Estimativas extraoficiais apontam ainda que há milhares de desaparecidos.

— Um relatório como este normalmente levaria meses para ser concluído, mas precisávamos produzi-lo com mais rapidez porque o tempo da reconstrução será fundamental — afirmou, em entrevista, Susana Cordeiro Guerra, vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe.

Segundo ela, o documento pode orientar as decisões de financiamento do governo e melhorar a coordenação entre os parceiros internacionais envolvidos na recuperação do país.

Segundo o Banco Mundial, a concessão de empréstimos para ações de socorro e reconstrução tem sido dificultada porque a Venezuela permaneceu afastada dos organismos multilaterais de crédito por mais de duas décadas e está em situação de inadimplência desde 2017.

O levantamento também aponta que os setores de educação e saúde foram especialmente afetados. Mais de 900 escolas, distribuídas por nove estados, e 38 hospitais sofreram danos provocados pelos terremotos, enquanto a infraestrutura ligada ao setor de energia registrou impactos relativamente limitados.

A estimativa do Banco Mundial é significativamente inferior à das Nações Unidas, que calculam em cerca de US$ 37 bilhões (R$ 187,3 bilhões) os danos físicos à infraestrutura e às moradias. A ONU estima ainda que mais de 1 milhão de pessoas necessitam de assistência humanitária imediata e, no início deste mês, lançou um apelo de quase US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) para atender 1,3 milhão de venezuelanos.

Impactos por uma década

O Banco Mundial avalia que o ritmo da reconstrução será um fator decisivo para a recuperação econômica da Venezuela e alerta que o desastre deve afetar a produtividade, o consumo e o crescimento do PIB durante a próxima década.

“Estes impactos podem ser mitigados ampliando o investimento público e privado para acelerar a reconstrução”, afirma o relatório. “Se a margem fiscal se ampliar, um maior investimento público poderia antecipar a reconstrução e as transferências às famílias afetadas mitigariam as perdas de consumo.”

A instituição informou ainda que trabalha em conjunto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF) para coordenar apoio técnico e financeiro.

— A Venezuela precisa de mais investimentos — ressaltou Cordeiro Guerra. — O Banco continuará sendo um parceiro técnico e estamos avaliando formas de apoiar o governo, inclusive com financiamento, para encontrar maneiras eficazes de atrair investimentos privados.

Segundo o estudo, seria possível concluir a reconstrução em cinco anos caso a Venezuela consiga mobilizar US$ 9,8 bilhões (R$ 49,8 bilhões) em financiamento público adicional e US$ 9,6 bilhões (R$ 48,8 bilhões) em investimentos privados. Sem esses recursos, porém, o país terá de remanejar verbas já existentes, o que pode prolongar o processo de reconstrução para pelo menos dez anos.

O relatório também alerta que, caso os gastos extras sejam financiados integralmente por dívida externa, a relação entre dívida e PIB da Venezuela poderá aumentar em 8,1 pontos percentuais até 2036.

Antes mesmo dos terremotos, os estados atingidos enfrentavam dificuldades econômicas e sociais. Rica em petróleo, gás e minerais, a Venezuela vive há anos uma crise marcada pela pobreza e pela deterioração da infraestrutura.

Parte dessa pressão econômica foi aliviada após Washington depor o então presidente Nicolás Maduro em uma operação militar, em janeiro, mas as necessidades econômicas e sociais da população seguem elevadas.

Washington assumiu o controle das receitas petroleiras do país, que são depositadas em contas bancárias dos Estados Unidos. Oficialmente, o governo do presidente americano, Donald Trump, supervisiona estreitamente como essas receitas são gastas.

Medicamentos, itens de primeira necessidade e maquinário de origem americana foram as primeiras compras realizadas pelo governo da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, segundo o Departamento de Estado.

Após a deposição de Maduro, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) retomaram o diálogo com o novo governo venezuelano. Segundo a instituição, a recuperação do país exigirá um esforço coordenado entre governo, organismos multilaterais e iniciativa privada.

Segundo Cordeiro Guerra, o Banco Mundial apoiará os esforços de recuperação “a cada passo do caminho”.

Quase um mês após a tragédia, as equipes seguem trabalhando na busca por desaparecidos sob os escombros, embora a prioridade tenha passado gradualmente das operações de resgate para a assistência humanitária e a reconstrução. Nesta semana, Delcy prometeu entregar 4 mil moradias até o fim do ano para famílias desalojadas, incluindo cerca de 23 mil pessoas que permanecem sem casa.


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