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Manaus

Prefeitura de Manaus vai gastar R$ 12,9 milhões com obras no Hotel Cassina

A Prefeitura quer transformar as ruínas do Hotel Cassina, depois Cabaré Chinelo, que foi tema de enredo da escola de samba Sem Compromisso para o Carnaval de 1983, em hotel 3 estrelas.

A Prefeitura de Manaus, através do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) publicou no Diário Oficial do Município (DOM) da última terça-feira, o Termo de Contrato de Obras e Serviços nº 014/2019, com a Construtoda Biapó Ltda. para a execução de obra e serviços necessários ao restauro do antigo Hotel Cassina, na esquina das ruas Bernardo Ramos e Governador Vitório e José dos Inocentes, no Centro Histórico de Manaus, no valor de R$ 12.964.868,25 (doze milhões, novecentos e sessenta e quatro mil, oitocentos e sessenta e oito reais e vinte e cinco centavos).

A Prefeitura quer transformar as ruínas em um hotel 3 estrelas, com a conservação das fachadas. O Hotel Cassina, depois Cabaré Chinelo, foi tema de enredo da escola de samba Sem Compromisso para o Carnaval de 1983 (“Hotel Cassina, apoteose e Boemia”, com letra de Aníbal Beça e música de Rinaldo Buzaglo sob interpretação do lendário Aroldo Melodia. Segundo historiadores, o nome do hotel foi em homenagem ao seu proprietário, o italiano Andréa Cassina. Foi ponto de encontro dos barões do período áureo da borracha, grandes empresários, intelectuais, políticos e visitantes ilustres no início do século 20, sendo o hotel mais frequentado da época. Depois virou hospedaria, após sendo rebaixado para pensão até chegar a Cabaré Chinelo e, hoje, um prédio abandonado, em ruínas.

O contrato é decorrente do Edital de Concorrência nº003/2019-CL-Implurb/PM. As despesas correrão à conta da rubrica orçamentária: UG – 560201 – Instituto Municipal de Planejamento Urbano – Implurb – UO – 56701 – Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano – FMDU – Programa de Trabalho: 15.451.0142.1094.0000 – Obras de Infraestrutura Urbana – Fonte Recurso: 02100350 – Recursos do Prominf/Manaus/Inisa – Natureza Despesa: 44905193 – Reformas, Benfeitorias ou Melhoria, sob a Nota de empenho nº. 2019/NE/00410, datada de 31/07/2019 no valor de R$ 12.964.868,25.

O prazo máximo para a completa execução dos serviços contratados será de 365 dias corridos, findo o qual os mesmos deverão ser concluídos, “restando claro que o início da contagem dar-se-á com o recebimento pela contratada da Ordem de Serviço respectiva, o que, por sua vez, está condicionada à publicação do Extrato deste Termo de Contrato no Diário Oficial do Município”, diz o Termo, com a data de 19 de agosto de 2019.

Na última terça-feira, o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF) publicou Portaria instaurando inquérito civil para “apurar eventual descaracterização da fachada histórica do Hotel Cassina em Manaus”, considerando “a representação dos autos, relativos a autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de continuidade de projeto imobiliário a ser construído no centro histórico de Manaus”.

História

Segundo o historiador e professor de história Aguinaldo Nascimento Figueiredo, o hotel foi o lugar boêmio mais famoso da cidade na era da borracha (1890/1910). O prédio do hotel, de estilo eclético, foi construído em 1899, e pertencia ao comerciante italiano Andrea Cassina. Erguido em dois pavimentos, possuía duas dezenas de aposentos e um restaurante na parte superior, que servia também de salão de festas, este, decorado com papéis de parede com motivos orientais, cortinas de seda verdes, mesas redondas e cadeiras leves importadas da Europa, forradas com toalhas de linho inglês. Ao lado da escada de acesso ficava o palco das apresentações artísticas, com sua famosa ribalta vermelha, candelabros providos de lâmpadas elétricas, com soalho revestido com tábuas de madeiras de lei.

Os quartos eram decorados com cortinas sóbrias e móveis italianos, camas americanas providas de colchão de mola, cobertas com colchas da Inglaterra, guarnecidas de travesseiros de penas de ganso e coxins de cetim da Índia.

Serviço de Táxi

No cardápio estavam presentes o que de mais requintado existia em matéria de gastronomia internacional. Os funcionários, principalmente os garçons, uniformizados em estilo europeu, serviam do caviar russo ao champanhe francês, além de peixes desidratados como salmão, esturjão e bacalhau norueguês entre outros mimos exigidos por uma clientela abastada que, muitas das vezes, sequer sabia o que estava degustando.

O Hotel Cassina foi um dos primeiros no Brasil a oferecer o serviço de táxi para seus clientes a partir de automóveis, com choferes também uniformizados, educados, cujos veículos estacionavam na frente do estabelecimento, oferecendo serviços de tournée pelos pontos de referência da cidade. Os serviços eram concorridíssimos, pois uma estadia em seus aposentos dependia de reservas antecipadas em até seis meses.

Seus momentos de glória ocorreram no período áureo da borracha, quando os barões do látex, gastavam suas libras esterlinas em diversões mundanas. O lugar ficou tão famoso que chegou a hospedar figures ilustres do mundo político e artístico a exemplo de um governador que residiu nele por vários anos, e recebeu o poeta Coelho Neto, quando de sua estadia na capital da borracha.

Polacas

O hotel oferecia outros tipos de comodidades para o deleite de sua seleta clientela, como um cassino, combinando com outras atividades tipo shows de dançarinas de can-can e a prática aberta do lenocínio.

Nas noites de funções, o hotel oferecia a companhia de mulheres bonitas e perfumadas, vindas da Europa, principalmente francesas, polacas, italianas e russas, que atendiam aos clientes endinheirados no seu famoso salão, servindo bebidas caras. Nos confortáveis aposentos os magnatas da borracha ou ilustres visitantes promoviam verdadeiras orgias baconianas que incluíam inclusive leilões de virgens caboclas.

Sabe-se, porém, que as mulheres ‘importadas’ não eram lá tão ‘sangue puro’ como se dizia na época e, tratavam-se, na maioria dos casos, de mulheres judias migradas de regiões da Rússia e Ucrânia, muitas delas, já ‘sambadas’ para o exercício do mister sexual, mas que se valiam da experiência na arte da sedução, principalmente por falarem outros idiomas, mais ainda, do complexo de inferioridade de colonizado do patrão da borracha, que achava que as ‘coisas’ de fora eram melhores do que as de casa, como até hoje.

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