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Manaus

Cientista da Fiocruz alerta que após 10 meses, Manaus voltou a registrar mais de 80 mortes por covid em uma semana

Jesem Orellana salienta que conforme dados do Ministério da Saúde, Manaus já ultrapassou os 10 mil óbitos por Sars-Cov-2

O Amazonas ultrapassou as 14 mil mortes por Covid-19 – Foto: Aguilar Abecassis

Depois de 10 meses, a capital do Amazonas voltou a registrar mais de 80 mortes por Covid-19 em uma semana e ultrapassou o total de 10 mil óbitos por Sars-Cov-2, conforme análise realizada pelo epidemiologista da Fiocruz Amazônia, o cientista Jesem Orellana, nesta quinta-feira (10/02). Ele destaca que a taxa de mortalidade de Manaus é semelhante a encontrada em 2020, na fase que antecedeu o colapso na rede pública de saúde.

Segundo o especialista, na semana 4 de 2022 (final de janeiro) foram contabilizadas 81 mortes, número não alcançado desde a semana 13 de 2021 (final de abril/2021) que alcançou 68 óbitos. Para se ter uma ideia, o número pode ser ainda maior nos próximos dias em razão da conhecida defasagem/atraso e da subnotificação de mortes, bem como do descaso ante à terceira onda da Covid-19, como alerta Jesem Orellana.

“O que estamos vendo ao longo de janeiro de 2022 é o reflexo da mais escancarada negligência sanitária em toda a pandemia, em Manaus, uma espécie de laboratório a céu aberto onde vale tudo, testar se existe imunidade de rebanho pela via natural (infecções propositais) ou se variantes como a Ômicron matam em larga escala, mesmo depois da vacinação em massa, por exemplo. Neste momento, Manaus tem uma taxa de mortalidade (8,7 para cada 100 mil habitantes) semelhante às taxas de mortalidade dos difíceis meses de setembro e outubro de 2020, os quais antecederam o caos de janeiro de 2021, marcado pelas centenas de mortes por asfixia, dentro e fora dos hospitais no estado do Amazonas”, analisou o cientista, ressaltando que o cenário só não é pior em razão do “avanço da vacinação em massa, ainda que em patamar aquém do desejado pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), mesmo um ano depois do início da campanha de vacinação”.

10 mil óbitos

O epidemiologista da Fiocruz Amazônia destaca que Manaus já ultrapassou as 10 mil mortes, mesmo que a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) aponte para apenas 9.639 óbitos até o último dia 9 de fevereiro de 2022. “Há dias, Manaus já ultrapassou as 10 mil mortes, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Esses mesmos dados não aparecem nos mais recentes boletins diários da FVS e nem no site de monitoramento da Prefeitura de Manaus, por motivos óbvios e deixa às claras a prática da apresentação de dados sabidamente defasados, a qual se arrasta desde o início da pandemia, na mais cristalina certeza de impunidade e omissão de diferentes atores da sociedade. Os especialistas conhecem o problema do atraso e/ou subnotificação, bem como as muitas maneiras de contornar esse problema”, comentou o cientista, destacando que as autoridades públicas reconhecem o agravamento da situação. “No entanto, esse esforço obrigaria as autoridades locais a reconhecerem precocemente sinais de agravamento epidêmico, algo que, definitivamente, não convém para quem prefere contar mortos, ao invés de salvar vidas, sob a falaciosa alegação de que a economia não pode parar”, completou.

Ômicron

Jesem Orellana comenta que graças à vacinação, Manaus não voltou a passar por momentos críticos como nos primeiros dois picos da pandemia, em que chegou a registrar colapso na rede pública de saúde e enterros coletivos nos cemitérios públicos. Ele refutou a relativização do poder letal da ômicron por parte das autoridades, como por exemplo, o próprio governador Wilson Lima que sequer reconhece a terceira onda no Amazonas.
“Tenho certeza que seria ainda mais mortal se tivesse surgido antes da vacinação em massa, especialmente em Manaus, sabidamente negligente no que diz respeito ao trato da epidemia. Muitos ignoraram ou fizeram pouco caso de nossos prognósticos em dezembro de 2021, tal como fizeram nos meses iniciais da segunda onda em 2020, a partir de setembro de 2020. Desta vez, acreditaram que a Ômicron poderia causar problemas leves, baseados na fórmula de sempre, achismos de quem pensa que Manaus responde a epidemia como Londres, por exemplo, que, aliás, está longe de ser um bom exemplo. No entanto, tem muito mais infraestrutura de saúde, não apenas em termos de diagnóstico laboratorial com também dentro e fora dos hospitais, além de recursos humanos mais qualificados”, disse o cientista.

Para o cientista, novamente, os fatos mostram que as medidas no enfrentamento à covid foram errôneas. “O quão equivocadas e irresponsáveis são as medidas usadas para tentar conter a disseminação viral em Manaus e no Amazonas, pois a Ômicron causou explosão inédita e avassaladora de novos casos/infecções, como também de internações e, mais recentemente, de mortes por COVID-19, embora em patamares bem menores que o observado em janeiro de 2021 (2.982 mortes). Isto porque, em janeiro de 2022 e até o momento (esse número pode aumentar um pouco mais nas próximas semanas/meses), foram contabilizadas inaceitáveis 192 mortes, a maior parte em não vacinados ou incompletamente vacinados. Em suma, em torno de 15 vezes menos mortes em janeiro de 2022, em comparação a janeiro de 2021, mas um número plenamente evitável e que mostra, pela terceira vez seguida, porque Manaus é mundialmente conhecida como a capital mundial da COVID-19”, finalizou o cientista.

FVS

Segundo os dados divulgados pela FVS, o Amazonas registrou somente nos primeiros 9 dias de fevereiro de 2022 o total de 83 mortes por Covid-19. Já durante todo o mês de janeiro foram somados 114 óbitos pelo coronavírus em todo o estado.

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