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Polilaminina: cientistas pedem cautela para evitar ‘expectativas desproporcionais’ com o medicamento ainda em testes

Estudos clínicos com a substância experimental, desenvolvida na UFRJ, vão começar neste ano para avaliar a segurança e a eficácia do fármaco.

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Na última sexta-feira, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) publicaram uma carta em conjunto sobre a polilaminina, medicamento experimental desenvolvido na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para tratar lesão medular.

Para as entidades, o caso destaca a importância das instituições públicas de pesquisa no Brasil. Ainda assim, elas pedem cautela em meio à repercussão sobre o remédio, que ainda está em fase de testes, para evitar “expectativas desproporcionais” em relação ao seu estágio de desenvolvimento.

A polilaminina é uma substância feita à base de uma proteína isolada de placentas chamada laminina. Entre suas funções, está a regeneração dos axônios, estruturas dos neurônios que são danificadas quando ocorre uma lesão na medula espinhal, afetando a comunicação entre o cérebro e os músculos.

Em testes muito preliminares, a molécula foi avaliada com cães e um grupo de 8 voluntários humanos, tratados entre 2018 e 2021 na fase aguda, até 72 horas após a lesão. A aplicação foi feita diretamente na medula espinhal durante a cirurgia. Os resultados foram variados, com alguns pacientes tendo uma recuperação completa dos movimentos, e outros uma melhora parcial.

No início de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da primeira fase dos estudos clínicos, que são divididos em três etapas e necessários para confirmar a segurança e a eficácia de um medicamento. Somente após a realização desses testes será possível solicitar a aprovação de uso na população e confirmar se, de fato, a melhora foi consequência da polilaminina.

Na nova carta, assinada pela presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, e pela presidente da SBPC, Francilene Procópio Garcia, as entidades chamam a atenção que, embora exista muita expectativa relacionada ao medicamento, é preciso ter cuidado ao comunicar sobre uma substância que ainda não tem a eficácia comprovada pelo risco de gerar frustrações.

“Em áreas como neuroregeneração, o percurso entre descoberta científica, validação pré-clínica, ensaios clínicos e eventual incorporação tecnológica é necessariamente longo, complexo e dependente de evidências acumulativas. A literatura internacional demonstra que terapias avançadas em saúde exigem processos rigorosos de validação científica, regulação sanitária e avaliação clínica, sendo incompatíveis com soluções imediatas ou expectativas terapêuticas antecipadas”, afirmam as presidentes.

Para elas, o caso da polilaminina reforça a importância de “delimitar, com clareza, as fronteiras entre pesquisa experimental, evidência científica consolidada e aplicação clínica”. Neste contexto, elas afirmam que a ampliação do debate público sobre o medicamento traz desafios para a comunicação científica:

“Tecnologias experimentais frequentemente mobilizam expectativas sociais legítimas, sobretudo quando associadas a doenças graves ou incapacitantes. No entanto, a comunicação sobre pesquisas em estágio inicial exige cautela, precisão e responsabilidade institucional, de modo a evitar a construção de expectativas desproporcionais em relação ao estágio real de desenvolvimento científico”, defendem.

Importância da ciência brasileira

Apesar da cautela, as entidades científicas celebram que a pesquisa tem origem numa instituição pública de pesquisa e afirmam que casos como o da polilaminina “evidenciam que a inovação biomédica de fronteira continua fortemente ancorada em laboratórios acadêmicos, grupos de pesquisa consolidados e infraestrutura científica construída ao longo de décadas”.

Para elas, isso mostra que, assim como observado em experiências internacionais, como no desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19, o investimento em ciência pública representa “um ativo estratégico nacional”. No entanto, chamam a atenção que, no Brasil, há ainda uma dificuldade na integração entre o desenvolvimento de pesquisa básica nas universidades, como foi com a polilaminina, e a transposição para medicamentos que possam ser testados e aplicados.

“O país possui tradição reconhecida em pesquisa básica, mas ainda enfrenta obstáculos na integração entre universidades, hospitais universitários, sistema regulatório, indústria biomédica e complexo econômico-industrial da saúde. A ausência de uma articulação sistêmica entre esses atores tende a prolongar o intervalo entre descoberta científica e eventual aplicação tecnológica, reduzindo o impacto social das inovações desenvolvidas em instituições públicas”, escrevem.

As presidentes da ABC e da SBPC abordaram ainda, na carta, a questão da patente da polilaminina. A pesquisadora Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, responsável pela substância, disse recentemente que, após um corte de verbas entre 2015 e 2016, a universidade perdeu a patente internacional do medicamento.

“(Isso) evidencia limitações estruturais do país na consolidação de estratégias robustas de patenteamento internacional, onde custos, prazos e competitividade tecnológica impõem desafios adicionais”, afirmam.

Elas concluem que “a trajetória da polilaminina revela virtudes e fragilidades estruturais do modelo brasileiro de inovação em saúde. Entre as virtudes, destacam-se a capacidade científica instalada, o protagonismo das instituições públicas de pesquisa e o avanço institucional na proteção do conhecimento. Entre as fragilidades, evidenciam-se os desafios na validação clínica, na gestão estratégica da propriedade intelectual, na comunicação científica e na articulação entre ciência, regulação e inovação produtiva”.


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