Brasil
Pesquisa mostra impacto que jogos e apostas podem ter na adolescência e no dia a dia das famílias
Pesquisa do Unicef revela que 22% dos jovens iniciam apostas até os 11 anos, o que exige atenção dos pais.

Uma recente pesquisa feita pelo Fundo das Nações Unidas (Unicef) revelou que 22% dos adolescentes entrevistados apostaram em jogos de azar pela primeira vez até os 11 anos. Não há dados específicos sobre o comportamento dos jovens no Brasil, mas a realidade indica uma situação semelhante.
As apostas on-line feitas por adolescentes têm preocupado educadores e até o Judiciário. Em escolas estaduais do Rio, há relatos de que estudantes usam táticas para burlar as restrições etárias impostas pelas plataformas, enquanto enfrentam problemas como evasão escolar e endividamento. O site EXTRA ouviu professores, jovens e especialistas para entender como o jogo tem se espalhado entre os adolescentes e os impactos que isso pode gerar no futuro dessa juventude.
A professora de Língua Portuguesa Sofia (nome fictício), que dá aulas numa escola da Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste do Rio, enfrenta dificuldade para reter a atenção dos alunos por causa das bets:
— Perguntei para uma turma do oitavo ano quem tinha o hábito de usar o Jogo do Tigrinho. A metade levantou a mão. Em outra classe, os alunos dormiam porque passavam a madrugada jogando.
Neste ano, entrou em vigor a proibição de uso de celulares nas escolas. Até recentemente, porém, a professora lembra que alunos pediam para usar o smartphone a fim de jogar e, quando eram impedidos, demonstravam irritação. Outro fator preocupante, segundo ela, é a facilidade com que eles burlam as restrições de idade das casas de apostas on-line, usando sites geradores de CPFs para acessar as plataformas digitais.
Primeiro estudo envolvendo jovens
Em 2011, o psiquiatra Daniel Spritzer, coordenador de um grupo de estudos sobre vícios tecnológicos, conduziu a primeira pesquisa no Brasil sobre transtornos relacionados a apostas entre adolescentes. Embora o acesso fosse mais restrito na época, o estudo, que considerou 661 jovens de 14 a 17 anos de todos os estados, revelou que 7% deles já participavam dessas atividades:
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— Em comparação com os adultos, os adolescentes apresentavam uma trajetória mais rápida entre o primeiro contato com as apostas e o desenvolvimento de problemas.
Pertencimento a grupos
Para Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta — que desenvolve trabalhos focados em educação midiática, o uso de apostas on-line por menores de idade está relacionado à necessidade de pertencer a grupos, característico dessa fase da vida.
— Essa busca por pertencimento pode dificultar a avaliação sobre os riscos associados às apostas on-line, que se apresentam por meio de plataformas com aparência infantil, cheia de cores e músicas — avalia.
A neuropsicóloga Lícia Assbu relata que já atendeu diversos adolescentes viciados em jogos, observando impactos diretos no desempenho escolar e na estabilidade financeira de suas famílias.
— A atividade de apostar ativa o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, neurotransmissor associado ao prazer. Com o tempo, essa liberação excessiva leva à necessidade constante de novas apostas, alimentando um ciclo vicioso. Muitos jovens perdem o interesse nos estudos e acabam comprometendo a renda familiar — explica.
Em fevereiro do ano passado, um adolescente de 17 anos foi apreendido por furto. O jovem morava com sua irmã mais velha no Complexo do Chapadão, em Ricardo de Albuquerque, estava cursando o segundo ano do ensino médio e trabalhava como entregador de lanche. A psicóloga na Vara Infância e da Juventude do Rio de Janeiro Alessandra Romana conta que o jovem admitiu que cometeu o crime para fazer apostas on-line:
— Durante nossa conversa, ao falar sobre a situação da apreensão, ele mencionou que se considera viciado em aplicativos de apostas online e expressou o desejo de ser encaminhado para atendimento psicológico.
O caso foi analisado em audiência com o juiz, que determinou a aplicação de uma medida socioeducativa de liberdade assistida.
Abandono da escola
João Brasil, de 23 anos, morador de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, abandonou os estudos no segundo ano do ensino médio alegando dificuldade de acesso às aulas on-line durante a pandemia de Covid-19. Na época com 18 anos, colegas de escola sugeriram que ele entrasse no mundo das apostas virtuais, recém-chegadas ao país, que davam créditos promocionais para atrair usuários. A alegada dificuldade de acesso à tecnologia não o impediu de seguir em frente.
O que era um passatempo passou a ser levado a sério. Ele deixou o trabalho como estoquista de uma loja por avaliar que poderia obter ganhos maiores com os jogos. Ele conta que, com o dinheiro conquistado, conseguiu comprar uma moto. Hoje, sua dedicação é voltada às apostas esportivas, especialmente as de futebol e basquete:
— Eu me considero viciado, mas não em jogar. Sou viciado em buscar formas de ganhar dinheiro. Estou longe de ser o garoto pobre e favelado que pede dinheiro emprestado com agiota e que zera o cartão de crédito, mas eu já vejo muita gente fazer isso.
Para ter o diploma do ensino médio, ele se inscreveu no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), mas faltou às provas. Sua prioridade é outra:
— Tenho consciência de que as apostas não duram para sempre, mas é difícil a vida de alguém que fica quatro anos sem trabalhar para fazer faculdade e depois tem um emprego de até R$ 3 mil”. Depoimento de H., homem, estudante de Direito, de 30 anos
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