Brasil
Pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025, diz dossiê
Número é o menor em 10 anos, mas mantém Brasil como país mais letal do mundo para essa população. Associação reuniu casos divulgados pela mídia e vê risco de subnotificação.
Um dossiê que será divulgado nesta segunda-feira (26) pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) revela que pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025.
O número apresenta uma queda de 34,4% em relação às 122 mortes contabilizadas em 2024.
Apesar disso, segundo a Antra, o estudo mantém o Brasil pelo 17º ano consecutivo como país mais perigoso para a população trans em todo o mundo.
👉 De acordo com o dossiê, a vítima mais nova tinha 13 anos.
👉 O perfil das vítimas é majoritariamente de “jovens trans negras, empobrecidas, nordestinas e assassinadas em espaços públicos, com requintes de crueldade”.
👉 Ceará e Minas Gerais registraram o maior número de mortes: 8 em cada estado.
As mortes de Paula Nascimento Batista, Valkiria Ferreira da Silva, Rhianna Alves, Carmen de Oliveira Alves, Neuritânia Pacheco, Gabriella da Silva Borges, Raquelly Leticia e Alice Martins Alves estão entre os casos registrados (veja fotos acima).
Como é feito o levantamento?
O dossiê da Antra leva em conta informações publicadas em reportagens, redes sociais e fontes não governamentais.
Segundo a presidente da associação, Bruna Benevides, isso acontece porque o Estado brasileiro ainda não produz dados próprios com esse recorte.
Por fazer o relatório apenas com as informações disponíveis publicamente, a entidade reconhece um risco grande de subnotificação. Ou seja: o risco de que os números sejam ainda maiores.
“A ausência de registros em determinados estados está diretamente relacionada à subnotificação estrutural, à invisibilidade das identidades trans nos boletins de ocorrência, à recusa institucional em reconhecer crimes como transfóbicos e à dependência quase exclusiva da mídia para o mapeamento dos casos. Em locais onde a imprensa cobre menos a pauta ou onde há maior precariedade institucional, as mortes simplesmente não entram nos registros”, diz Bruna Benevides.
O documento ressalta ainda que “o medo de represálias, a falta de acesso à Justiça, a violência policial e a desconfiança histórica das pessoas trans em relação ao Estado contribuem para o apagamento estatístico”.
“Muitas mortes são registradas com nomes civis incorretos, gêneros errados ou nem sequer são identificadas como crimes de ódio, o que impede sua inclusão nos levantamentos”, pontua a Antra.
Segundo a associação, isso vale inclusive para estados com “zero casos” de assassinatos de pessoas trans. O dado serve como um alerta, e não como um indício de tranquilidade.
“[Os estados com ‘zero casos’] Representam, na maioria das vezes, territórios onde a violência não é documentada, onde vidas trans seguem descartáveis e onde o silêncio institucional substitui qualquer política real de proteção. O dossiê é explícito ao afirmar: quando o Estado não produz dados, ele também não assume responsabilidade”, explica Bruna.
Número de assassinatos por estado
Dos assassinatos em 2025:
77 foram contra travestis e mulheres trans/transexuais
3 contra homens trans e pessoas transmasculinas
Veja os números de mortes em cada estado e no Distrito Federal, segundo a Antra:
Minas Gerais e Ceará: 8 casos cada
Bahia e Pernambuco: 7 casos cada
Maranhão, Pará e Goiás: 5 casos cada
Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte e São Paulo: 4 casos
Mato Grosso e Rio de Janeiro: 3 casos
Piauí e Rio Grande do Sul: 4 casos cada
Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul: 3 casos cada
Amazonas, Amapá, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sergipe: 1 caso cada
Acre, Piauí, Rondônia, Tocantins e Roraima: não foram encontrados registros
Veja o perfil das vítimas, segundo o dossiê
-Jovens trans entre 13 e 29 anos
-Pessoas empobrecidas, em contexto de alta vulnerabilidade social, que utilizam o trabalho sexual como fonte primária ou secundária de renda;
-Dentre os 57 casos em que foi possível determinar a raça/cor das vítimas, 70% eram pessoas trans negras.
“Muitos crimes acontecem em espaços públicos, com uso de extrema violência, revelando a combinação de transfobia, racismo e desigualdade social como motores centrais dessas mortes”, diz Bruna Benevides.
Caso emblemático em MG
Uma das vítimas em 2025, Alice Martins Alves, tinha apenas 23 anos e foi espancada ao sair de um bar na Savassi, na Região Centro-Sul de BH.
Ela se levantou, foi embora e se esqueceu de pagar a conta de R$ 22. Por isso, foi perseguida e espancada por dois funcionários, segundo a polícia.
Quando ocorreu o caso, a irmã de Alice, Gabrielle Martins, chamou a atenção para a realidade de pessoas LGBTQIA+ no Brasil. Afirmou que ainda existe a negligência da sociedade e do poder público dentro do contexto social em que a irmã vivia.
Cautela sobre a ‘melhora’ nos dados
O dossiê dedica um capítulo inteiro para explicar por que a redução numérica de casos registrados em 2025 não representa uma melhora no cenário real.
A pesquisa lista seis fatores principais:
-Dificuldades crescentes de monitoramento: Falta de cooperação estatal e ausência de sistemas oficiais específicos para catalogar crimes contra a população trans
-Retração da mídia tradicional: 49% dos casos foram divulgados apenas em portais regionais de baixo alcance
-Controle nas redes sociais: Limitação de conteúdos que denunciam violência contra pessoas trans
-Ataques às organizações: Tentativas de deslegitimação do trabalho de entidades que monitoram esses crimes
-Medo e isolamento: População trans deixando de circular em espaços públicos como estratégia de sobrevivência
-Descrédito nas instituições: Vítimas e famílias deixando de registrar ocorrências por falta de confiança na polícia e no sistema de justiça
Um dado crucial expõe a complexidade do problema: 67,5% dos assassinatos ocorreram em cidades do interior, contra apenas 32,5% nas capitais.
Essa interiorização da violência, em locais com acesso ainda mais restrito a redes de apoio, dificulta ainda mais a catalogação das mortes e sugere que a redução de registros em certas regiões pode ser um sintoma do isolamento geográfico das vítimas.
Combatendo a violência
A presidente da Antra destaca a necessidade de ações para o combate à violência contra travestis e transsexuais. Segundo ela, são necessárias políticas específicas e integradas, entre elas:
Produção de dados oficiais com recorte de identidade de gênero;
Políticas de prevenção à violência, formação das forças de segurança;
Investigação adequada dos crimes;
Responsabilização dos autores;
Políticas de inclusão social;
Acesso a trabalho, saúde e educação, além do enfrentamento direto à transfobia institucional
Não deixe de curtir nossa página no Facebook, siga no Instagram e também no X.













Faça um comentário