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Pará e Amazonas lideram atraso escolar em áreas rurais e ribeirinhas, aponta relatório do Inep

Estados concentram as maiores taxas de defasagem na rede pública fora dos centros urbanos.

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A dificuldade de chegar à escola ajuda a explicar por que o atraso escolar é mais acentuado nas áreas rurais e ribeirinhas do Brasil, onde estudantes da rede pública acumulam índices de defasagem superiores aos das cidades, especialmente no Norte do país. As informações são do jornal Folha de São Paulo.

No ensino fundamental, 16,5% dos alunos das escolas rurais estão fora da série adequada para a idade, contra 11,6% nas urbanas. No ensino médio, essa proporção sobe para 29,8% entre os estudantes do campo, frente a 19% nas cidades, segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

O atraso educacional, tecnicamente chamado de distorção idade-série, ocorre quando o aluno está dois ou mais anos abaixo da série esperada para sua idade —um retrato de desigualdades no acesso e na permanência escolar.

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Pará e Amazonas têm os piores indicadores do país no recorte rural e ribeirinho. Nos anos finais do ensino fundamental, as taxas são de 33,2% no Pará e 21,5% no Amazonas. No ensino médio, as proporções sobem para 42,2% e 50,6%, respectivamente.

Os índices são resultado de um levantamento com base em dados do Inep, tratados pelo QEdu, portal que reúne e disponibiliza informações públicas da educação básica brasileira.

Nesses dois estados da região Norte, as dificuldades de transporte agravam a distorção idade-série nas áreas rurais, onde o acesso à escola muitas vezes exige longos deslocamentos por rios ou estradas precárias, com impacto direto na frequência e no aprendizado.

É nesse cenário que vive Rafaela de Souza, dona de casa e moradora de uma comunidade ribeirinha na zona rural de Manaus, onde o filho de 12 anos estuda em uma escola municipal. Ele está no terceiro ano do ensino fundamental, um atraso de ao menos quatro anos em relação à série esperada para sua idade.

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Todos os dias, ele depende de um barco escolar para tentar chegar à escola, que fica a dezenas de quilômetros de casa pelo rio. “É triste ver que meu filho ainda está muito atrasado. O barco fica semanas sem aparecer, ele perde muita aula, e isso cobra um preço. Ele mal consegue ler”, relata a mãe.

A reportagem enviou à Prefeitura de Manaus perguntas sobre a qualidade e a regularidade do transporte escolar na zona rural, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Para Eraldo Souza do Carmo, professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) e pesquisador da educação do campo, parte do quadro resulta de uma oferta tardia e irregular de escolarização fora dos centros urbanos.

Ele aponta que o transporte escolar é um dos pontos centrais desse problema, especialmente quando envolve deslocamento aquaviário. O professor também destaca que o financiamento não acompanha o custo real de operar esse tipo de transporte na Amazônia, o que sobrecarrega os orçamentos municipais.

“Em muitos municípios ribeirinhos, os estudantes dependem de canoas, barcos e longas viagens em rios para chegar às salas de aula. A chamada nucleação [fechamento de escolas pequenas para concentrar alunos em unidades maiores e mais distantes] ampliou ainda mais esses percursos”, afirma.

Mesmo quando a frequência é mantida, muitas vezes por causa de programas sociais que vinculam benefícios à presença na escola, o tempo de deslocamento e o cansaço afetam diretamente o aprendizado, explica Fábio Alexandre Ferreira Gusmão, professor colaborador do Observatório da Educação Tiradentes da Unit (Universidade Tiradentes).

“Entre priorizar o estudo, que é um direito, e a condição de sobrevivência, às vezes, a condição de vida fala mais alto.”

Segundo o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), o governo federal concluiu em 2025 o pagamento do adicional de 50% nos recursos destinados ao transporte escolar aquaviário dentro do Pnate (Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar), previsto em resolução de 2024.

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A parcela liberada neste ano destinou cerca de R$ 31,2 milhões a pouco mais de 400 entes federativos, beneficiando aproximadamente 290 mil estudantes da educação básica que dependem de embarcações para chegar à escola, sobretudo na região Norte. O apoio, porém, ainda não cobre a dimensão do problema, segundo os pesquisadores ouvidos pela reportagem.

A Folha questionou as secretarias de Educação do Amazonas e do Pará sobre os desafios para garantir transporte escolar e reduzir o atraso educacional. O Pará atribuiu parte do problema à dificuldade dos alunos de conciliar estudo e trabalho, à infraestrutura limitada e à complexidade do transporte escolar nesses territórios. O Amazonas não respondeu à reportagem.

O MEC (Ministério da Educação) e o FNDE também foram questionados sobre o financiamento do transporte escolar, especialmente aquaviário, mas não responderam até a conclusão deste texto.


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