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Brasil

Larva de 3,9 mm encontrada na foz do rio Amazonas acende alerta de invasão

O achado de uma larva com apenas 9 dias de vida indica que o predador já venceu a antiga barreira natural da foz do Amazonas.

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Um estudo científico registrou pela primeira vez uma larva do peixe-leão invasor na Plataforma Continental do rio Amazonas. O achado indica que a espécie já está se reproduzindo na região, derrubando a antiga hipótese de que a pluma de água doce do rio funcionaria como uma barreira natural contra o predador. A espécie já devastou recifes no Caribe e nos Estados Unidos.

Onde o gigante Rio Amazonas encontra a imensidão azul do Atlântico, um filtro invisível de água turva e baixa salinidade sempre serviu como uma sentinela da biodiversidade brasileira. Por décadas, acreditou-se que essa “pluma” de água doce fosse uma barreira intransponível para espécies marinhas do Caribe. Mas a sentinela cochilou — ou melhor, o invasor aprendeu a atravessar o posto.

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O estudo contou com a colaboração dos pesquisadores Paula Campos, Igor Hamoy e o mestrando Lucas Corrêa, registrou a primeira larva do peixe-leão-invasivo (Pterois volitans) na Plataforma Continental do Amazonas (ACS).

O espécime, um minúsculo habitante de apenas 3,9 milímetros e estimadamente 9 dias de vida, é a prova biológica de que o “ciclo se fechou”: o peixe-leão não está apenas de passagem; ele se estabeleceu e está se reproduzindo no Norte do Brasil.

Fim do ‘mito’ da barreira natural

Historicamente, a ciência tratava a foz do Amazonas como um escudo. A descarga colossal de sedimentos e água doce criava condições adversas para peixes que dependem de salinidade alta e águas cristalinas. Contudo, o peixe-leão provou ser um mestre da adaptação.

“Atualmente, sabe-se que a pluma formada pela descarga fluvial do rio Amazonas funciona como um divisor de áreas, formando um sistema heterogêneo. Características físicas, como a turbidez e químicas, como a salinidade e concentração de nutrientes, separam espécies de acordo com sua capacidade adaptativa”, explicam os pesquisadores no material enviado ao Terra da Gente.

Segundo os especialistas, a pluma agora é vista mais como um filtro do que como um muro. “Não bloqueia totalmente a entrada e permanência de espécies marinhas, mas ainda sim restringe algumas”. O peixe-leão, contudo, possui o “passaporte” biológico para ignorar essas restrições.

O ‘RG’ de um invasor

O detalhe que mais assusta a comunidade científica é a idade e o estágio de desenvolvimento do exemplar encontrado. Com menos de 4 milímetros, a larva estava no chamado “estágio de flexão”, com as nadadeiras ainda em formação. Isso significa que ela tinha baixíssima mobilidade e não teria força para nadar distâncias continentais vindas do Caribe.

“Nesse estágio de desenvolvimento larval, uma larva carreada da costa caribenha encontraria o sistema de retroflexão da Corrente Norte Brasileira (CNB) como uma barreira física para sua dispersão. Portanto, a presença da larva evidencia um resultado de reprodução ativa da espécie já adaptada na região”, afirmam.

A descoberta foi um triunfo da tecnologia sobre o desgaste do tempo. Como o espécime estava levemente danificado, a morfologia visual permitiu chegar apenas à família do peixe. Foi necessário o uso do DNA Barcoding — uma espécie de código de barras genético — para confirmar com 100% de precisão que se tratava do temido invasor.

Risco ao “ouro negro” dos recifes amazônicos

O avanço desse predador coloca em xeque um dos ecossistemas mais misteriosos e exuberantes do planeta: o Grande Sistema de Recifes da Amazônia (GBA). Trata-se de uma região de corais e esponjas que vivem sob a pluma do rio, abrigando espécies que não existem em nenhum outro lugar do mundo.

O risco é classificado pelos pesquisadores como “alto e iminente”, podendo resultar em um “desastre ecológico previsível”.

“O peixe-leão é extremamente adaptável, resistente a variações de salinidade e temperatura e sua desova ocorre durante o ano todo. Essa alta taxa reprodutiva, somada à ausência de predadores naturais no Atlântico, permite que a espécie se multiplique rapidamente, causando grande desequilíbrio ecológico”.

Em áreas de berçário, o invasor é um “buraco negro” de biodiversidade: devora larvas e juvenis de espécies nativas antes mesmo que elas tenham chance de crescer. Isso inclui peixes de alto valor comercial, como garoupas e pargos, o que ameaça diretamente a subsistência de milhares de famílias que dependem da pesca artesanal.

É possível vencer a invasão?

A pergunta que fica para os gestores ambientais é amarga: ainda há tempo para expulsar o peixe-leão? Para os autores do estudo, a resposta exige realismo.

“Quando se trata de uma espécie com alto poder adaptativo e grande potencial de dispersão, uma erradicação a esse ponto se torna praticamente impossível”, alertam.

O foco agora deve ser o manejo e a contenção. Os pesquisadores defendem a criação urgente de um plano de controle populacional para mitigar os efeitos adversos. Mais do que isso, pedem investimento em ciência:

“Precisamos de mais investimentos em estudos de ictioplâncton na costa norte brasileira para que possamos compreender em maior escala como e quanto a presença da espécie está afetando direta e indiretamente o ecossistema”.

A larva de 3,9 mm pode ser pequena aos olhos humanos, mas o seu impacto é gigante. Ela é o sinal de que o mar da Amazônia mudou, e agora, a corrida é para garantir que nossas espécies nativas não desapareçam silenciosamente sob a sombra das nadadeiras listradas do invasor.


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