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BC autorizou banco para ex-sócio do Master quando já suspeitava de fraudes com carteiras de crédito, diz Folha

As suspeitas sobre fraudes nas carteiras de crédito consignado do Master, negócio ligado a Lima, acenderam o alerta no BC em março do ano passado.

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Ainda no meio das investigações para apurar se o Banco Master aprovou em julho de2025 a transferência de um banco para um dos suspeitos de participar da fraude, o empresário Augusto Lima, que já foi um dos principais sócios do Master. As informações são do jornal Folha de São Paulo.

Lima foi preso junto com executivos do Master, incluindo o controlador Daniel Vorcaro , em 17 de novembro do ano passado, dentro da Operação Compliance Zero. Ambos foram soltos e estão com tornozeleira eletrônica. Lima e outros executivos do banco foram intimados pela PF (Polícia Federal) para prestar depoimento de 26 a 28 de janeiro.

As suspeitas sobre fraudes nas carteiras de crédito consignado do Master, negócio ligado a Lima, acenderam o alerta no BC em março do ano passado. A denúncia do regulador para o MPF (Ministério Público Federal) relatando indícios de crimes foi feita em 15 de julho. O sinal verde para o ex-sócio comprar o banco ocorreu em 24 de julho.

O empresário obteve o controle do Banco Voiter, antigo Indusval, uma instituição financeira que encerrou 2024 com R$ 7,5 bilhões em ativos e que era controlado pelo Master desde fevereiro de 2024. Sob o comando de Lima, o nome da instituição mudou para Banco Pleno, que tem como foco no segmento de empresas.

Após sua prisão, Lima foi afastado do dia a dia do Pleno pelo BC, enquanto o banco segue operando normalmente. O ponto de partida das investigações que culminaram com as prisões foi um fluxo atípico de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master, como pagamento pela venda de carteiras de crédito consignado nos primeiros meses do ano de 2025.

A autarquia pediu explicações sobre a origem por meio de um ofício, e o Master respondeu, em 25 de março, que os créditos haviam sido originados por duas associações de servidores da Bahia: a Asteba (Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia) e a Asseba (Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia). Elas teriam concedido crédito consignado do parceiro Master a seus integrantes.

Após uma varredura, a autarquia concluiu que as entidades não tinham condições de gerar tanto dinheiro e voltou a questionar o Master. Em resposta, o banco disse que tinha, desde janeiro, um novo parceiro para ofertar crédito consignado. A partir daí, o BC apurou mais uma sequência de outras irregularidades que só piorou a situação dos envolvidos. A decisão judicial que autoriza as prisões afirma que há indícios de que Lima tinha um esquema com as entidades da Bahia. Ele possuiu procuração para atuar como representante delas junto às instituições financeiras em geral. O telefone de contato delas era o mesmo de uma empresa de Lima na Receita Federal.

QUEM É LIMA

O empresário Augusto Lima é de Salvador (BA), onde é conhecido pela proximidade e pelo bom trânsito com os políticos baianos, especialmente do PT —apesar de o Master ser apontado como um banco de políticos do centrão e  Lima ser casado, desde 2024, com Flávia Peres, ex-ministra-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República de Jair Bolsonaro.
Sua trajetória no setor bancário começa na Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), estatal privatizada durante o governo de Rui Costa, em 2018. A partir do braço financeiro do supermercado Cesta do Povo, que fazia parte dos ativos, Lima reestruturou um cartão de compras e criou o Credcesta, um cartão de benefício consignado, com desconto em folha, para servidores ativos, aposentados e pensionistas.

Ainda naquele ano, Lima fez um acordo com Master para compartilharem o Credcesta. Na sequência, se tornou sócio do banco em 2020, fortalecendo a expansão do cartão por quase todo o Brasil. Ele era reconhecido como o homem do crédito consignado no Master. Em 2024, o Credcesta estava em 176 municípios de 24 estados. As demonstrações financeiras daquele ano destacaram que o banco tinha crescimento expressivo na base de crédito consignado federal (INSS).

Inicialmente, a estratégia de venda de carteiras para elevar a liquidez foi puxada por operações com o Credcesta. A intensidade das operações no final de 2024 foi tal que acabou alimentando queixas, principalmente na Bahia. Reportagem da Folha mostrou a insatisfação de pessoas, que em alguns casos não reconheciam a contratação do crédito repassado ao BRB.

Com a compra do Voiter, Lima também levou a corretora Intercap e recuperou a totalidade do Credcesta, agora no Banco Pleno, que está operando com servidores municipais e estaduais. Em outubro de 2025, o INSS suspendeu o convênio do consignado egresso do Master  alegando ter encontrado irregularidades, como volume expressivo de reclamações sobre o produto e não cumprimento da instrução normativa —não apresentar autorização expressa do tomador de recursos, por exemplo.

SUSPEITAS NA BAHIA

Especialistas que já acompanharam transações bancárias afirmam que não há,receita fixa para analisar a transferência societária de um banco, mas vale o bom senso. A leitura é que um caso tão sensível como o do Master demanda checagem de todos os riscos, ainda mais se o comprador é um ex-sócio relevante. “A transferência de ativos a ex sócio, sobretudo em um momento sensível de uma investigação, impõe a ampliação do escrutínio. É indispensável verificar se esse ex-sócio atua como terceiro interposto, consciente ou não, para afastar o bem do alcance de credores, reguladores ou autoridades”, afirma José Andrés Lopes da Costa, sócio do DCLC Advogados, especialista em direito financeiro e de mercado de capitais.

“Ignorar o risco do ex-sócio seria deixar uma lacuna relevante na investigação. Não se trata de presumir culpa, mas de cumprir o dever técnico de apuração integral do fluxo patrimonial e de seus beneficiários, especialmente quando a transferência ocorre sob suspeita e em ambiente de forte assimetria informacional.”

Procurado pela Folha para explicar como se deu a análise de venda para um exsócio de Vorcaro, no meio de suspeitas de fraudes, a assessoria do BC disse que não comenta temas relacionados ao Master por causa do sigilo. Pessoas que acompanham o processo e não querem ter o nome citado dizem que os técnicos da autarquia têm reafirmado que todas as decisões relacionadas ao caso possuem sustentação legal.

Existe um regramento com grandes diretrizes sobre o processo de aprovação de controle de bancos, a resolução do CMN nº 4.970, de 2021. O básico é fazer avaliação de liquidez, solvência e background do grupo para onde será transferido. O proponente não pode ser alvo processo criminal ou inquérito policial. No histórico do caso que o BC apresentou ao TCU (Tribunal de Contas da União), a autarquia diz que aprovou a transferência do Voiter para Lima porque ele preencheu os requisitos dessa norma.

Outro tema controverso é a relação de Lima com o Master. O empresário era visto com frequência no banco. Reportagens em sites especializados e veículos de circulação nacional publicaram em mais de uma ocasião em 2025 que sua saída ainda precisava ser oficializada no Banco Central. Dados oficiais são desencontrados. O comunicado do BC sobre a liquidação do Master lista sócios e diretores, sem trazer o nome de Lima. Na sexta-feira (9), quando a Folha fez consulta ao site da Receita Federal, Lima ainda figurava como diretor do Master. A decisão judicial que autoriza a prisão qualifica Lima como sócio e diretor do Master —posições que a defesa dele nega. “As operações sob investigação são posteriores à saída de Augusto Lima do Banco Master, ocorrida em maio de 2024, e não possuem qualquer relação com sua atuação profissional ou com decisões tomadas durante sua permanência na instituição”, afirmaram os advogados de Lima em nota enviada à Folha. “A apuração deixará evidente a inexistência de vínculo entre Lima e os fatos examinados.”

A Folha conseguiu localizar o acordo para saída de Lima, assinado em 28 de maio de 2024. Ele se comprometeu a transferir a Vorcaro, mediante o cumprimento de algumas condições, 33, 3 milhões de ações ordinárias, que representavam 18,62% do capital social e seriam, diz o documento, a sua totalidade de ações no banco.

Ao final do ano, Lima e Quadrado já não apareciam, e o organograma passou a incluir um número maior de fundos na estrutura de controle, sem revelar quem é o investidor final por trás deles.

OUTRO EX-SÓCIO FICOU SEM BANCO

No mesmo 24 de julho em que aprovou a transferência de controle do Voiter para Lima, o BC negou a transferência do Letsbank para Maurício Quadrado, que havia ingressado na Master em 29 de setembro de 2020 e saído em 26 de setembro de 2024. Segundo documento do BC, o comprador não conseguiu comprovar capacidade financeira para assumir a instituição, nem a origem lícita dos recursos.

Quadrado sofreu busca e apreensão na quarta-feira (14), dentro da segunda fase da Operação Compliance Zero. O empresário liderou a área de investimentos do Master e é dono, desde 2022, da Trustee DTVM.

Essa corretora atuava como prestadora de serviços para o Master e aparece em diferentes investigações, ligadas não apenas a Daniel Vorcaro, mas também ao empresário Nelson Tanure . A mesma Trustee foi alvo da operação Carbono Oculto, em 28 de agosto de 2025, por suspeita de operar com recursos de alvos ligados ao PCC. A assessoria de imprensa de Quadrado reforçou que o empresário sempre trabalhou dentro da lei.

JUSTIFICATIVA NA DECISÃO DE PRISÃO

“Em relação a Augusto Ferreira Lima, sócio e diretor do Banco Master, pelos veementes indícios apresentados pela autoridade policial realmente controla de forma indireta duas associação de servidores do Estado da Bahia e que serviram de suporte da falsa narrativa de que as transferências de recursos entre as instituições financeiras decorreriam da cessão de carteiras destas associações.

Possui procuração de ambas para tratar com instituições financeiras e, portanto, é o responsável pela movimentação de recursos destas entidades, além de outros vínculos, já apontados pela autoridade policial, em especial o mesmo telefone de contato destas associações com uma empresa de sua propriedade perante a Receita Federal (fls. 69/71). Sua posição de sócio e de pessoa que viabilizou a maior parte das fraudes de créditos pelo Banco Master também o coloca em posição de destaque, sendo sua participação indispensável e relevante para a finalidade de captação fraudulenta de recursos pelo Banco Master e que depois seriam cedidos ao Banco Regional de Brasília”, diz o juiz federal Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília.

CRONOLOGIA SOCIETÁRIA

Daniel Vorcaro, Augusto Lima e Maurício Quadrado chegaram a ser os
principais sócios do Master. Acompanhe a trajetória:
2018
11 de abril — Um consórcio, do qual faz parte Augusto Lima, arremata a
Ebal (Empresa Baiana de Alimentos) em um processo de privatização do
governo Rui Costa e leva junto a estrutura para o Credcesta
2019
12 de outubro — Daniel Vorcaro recebe autorização do BC para assumir o
Banco Máxima; ele havia entrado de sócio na instituição em 2017 e,
depois, em 2021, muda o nome para Master
2020
28 de maio — Lima torna-se sócio do Master e amplia a abrangência do
Credcesta em nível nacional, fortalecendo a operação de crédito.
29 de setembro — Maurício Quadrado deixa a corretora Planner e se
torna sócio do Master, para onde leva os serviços da Trustee, corretora
que adquiriu em 2022 e nunca fez parte dos ativos do banco
2024
7 de fevereiro — Master divulga compra do Banco Voiter (antigo Indusval)
28 de maio — Assinatura do acordo prevendo que Augusto Lima vai
transferir 33,3 milhões de ações ordinárias do Master, o equivalente a
18,62% do capital, Daniel Vorcaro
31 de maio —Trustee amplia compra de ações da Ambipar; suspeita de
manipulação de preço é investigada na CVM até hoje
26 de setembro — Maurício Quadrado deixa a sociedade do Master
2025
25 de março — Em resposta a questionamento do BC, que quer saber
origem de R$ 12,2 bi em negociações de carteiras de crédito, Master
informa que originadoras são duas entidades da Bahia, que BC depois
apura não terem condições financeiras para tanto
28 de março — BRB anuncia compra do Master, e BC inicia análise da
proposta
15 de julho — O BC faz representação criminal ao MPF sobre suspeitas de
fraudes na venda de carteiras de crédito do Master ao BRB
24 de julho — BC autoriza a transferência do Banco Voiter, ativo Master,
para Augusto Lima e nega transferência do Letsbank, também do Master,
para Maurício Quadrado
28 de agosto — A corretora Trustee, de Quadrado, é alvo da Operação
Carbono Oculto, por suspeita de operar recursos ligados a alvos
associados ao PCC
17 de novembro — Lima é preso, junto com executivos do Banco Master,
incluindo Vorcaro, na Operação Compliance Zero; investigadores aponto
suspeita de envolvimento de Lima na fraude de carteiras a partir das
associações da Bahia
18 de novembro — BC anuncia liquidação extrajudicial do Master


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