Brasil
Amazonas mantém índice mais alto de câncer de colo do útero do País, apontam dados do Ministério da Saúde
Diagnóstico tardio, desigualdade regional e falhas no rastreamento sustentam números que não caem há décadas.
Nas regiões Norte e Nordeste, o câncer de colo do útero é o segundo tipo mais frequente em mulheres, atrás apenas do de mama. A taxa de incidência no Norte é de 22,79 casos por 100 mil mulheres, quase o dobro da registrada no Sudeste, de 14,06. No Amazonas, o índice chega a 28,57, o mais alto do país, de acordo com dados preliminares do Ministério da Saúde (MS).
De acordo com o MS, quase 20 mulheres no Brasil são vítimas do câncer de colo do útero, O número, para especialistas, está estagnado hpa mais de 40 anos, apesar de a doença ser 100% prevenível com a vacina contra o HPV.
“Isso era em 1980. Nós estamos em 2026. Nada mudou”, diz a oncologista Mônica Bandeira, que há 46 anos trata pacientes com câncer de colo do útero em Manaus. Para ela, apesar de avanços pontuais, o Brasil não conseguiu dobrar a curva de uma doença.
Em 2025, o câncer de colo do útero matou cerca de 7.249 mulheres no país, quase 20 por dia. Para o triênio 2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 19.310 casos novos por ano, número superior ao período anterior, quando a projeção era de 17.000 casos anuais.
“A gente está num platô”, resume Eduardo Cândido, ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica da Febrasgo. “Não conseguimos diminuir a incidência.”
Para os especialistas, o principal problema está no rastreamento falho, que faz com que a doença seja descoberta quando já avançou demais. Pesquisa da UFMG publicada em 2022 no International Journal of Gynecological Cancer mostrou que cerca de dois terços dos cânceres ginecológicos no Brasil são diagnosticados em estágios avançados.
O abismo também é visível na prática clínica. A oncologista Mariana Scaranti, do Hospital Nove de Julho, em São Paulo, conta nos dedos as pacientes que chegam ao seu consultório particular com tumor em estágio avançado. “No privado, eu nunca tive uma paciente com odor forte”, diz ela, referindo-se ao sinal clínico de necrose tumoral, indicativo de doença muito avançada.
Em Manaus, a realidade descrita por Bandeira é outra. “Se tiver uma paciente longe aqui da gente, lá na recepção, a gente já sente o cheiro. É muito forte.” No interior do Amazonas, exames preventivos precisam ser enviados à capital para processamento, e a espera pode chegar a seis meses em alguns municípios. Mulheres de comunidades ribeirinhas chegam a levar até oito dias de barco para acessar tratamento.
“Há um abismo de políticas que deveriam ser direcionadas para os locais que precisam mais”, diz Cândido.
Novo exame avança
O Ministério da Saúde está substituindo gradualmente o exame de Papanicolau pelo teste de DNA-HPV, que detecta diretamente o vírus nas células do colo do útero. A diferença de eficácia é expressiva: enquanto o Papanicolau tem sensibilidade entre 65% e 70%, o novo teste chega a quase 100%. Um resultado negativo ainda dispensa nova coleta por cinco anos — vantagem significativa para mulheres em áreas de difícil acesso.
Hoje, sete estados oferecem o exame pelo SUS: Pernambuco, Pará, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro. A expansão para todos os estados deve ser concluída até o fim de 2026, segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
O Amazonas ainda está em “fase de alinhamento e planejamento”, com um projeto-piloto em andamento em 12 municípios. “Duas pacientes que moram no mesmo país têm realidades diferentes de atendimento. Não é para acontecer isso”, critica Scaranti.
O teste de DNA-HPV também viabiliza a autocoleta, modalidade em que a própria mulher coleta a amostra em casa. No SUS, a estratégia é adotada apenas para populações de difícil acesso, como ribeirinhas, indígenas e pessoas LGBTQIAPN+. Bandeira defende a ampliação urgente no Amazonas e lembra que o estado realizou o primeiro estudo brasileiro com dispositivo de autocoleta ainda em 2015, com aceitação de quase 100% entre as participantes.
Vacina
O Brasil se comprometeu com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública até 2030. A meta exige vacinar 90% das meninas, rastrear 70% das mulheres elegíveis e tratar 90% dos casos diagnosticados.
O HPV é responsável por praticamente todos os casos da doença. A vacina é oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Em 2025, a cobertura foi de 86% entre meninas e 74,4% entre meninos, retomada após anos de queda. A mudança para dose única, validada por estudo publicado no New England Journal of Medicine em dezembro de 2025, também contribuiu para ampliar a adesão.
Mas os especialistas pedem cautela quanto aos prazos. “O impacto do aumento da cobertura vacinal a gente vai ver daqui a uma década, não agora”, diz Scaranti. “Precisamos fazer essa lição de casa, com rastreio, diagnóstico precoce e vacinação, para que os números, daqui a dez anos, sejam totalmente diferentes.”
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