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Amazonas

Um ano depois, familiares de vítimas da falta de oxigênio no Amazonas relatam revolta pela impunidade diante da tragédia

14 de janeiro de 2021 marcou o início da pior tragédia sanitária da história do Amazonas e que ceifou dezenas de pacientes por falta de oxigênio hospitalar

Em Coari, sete pacientes morreram por falta de oxigênio hospital na unidade de saúde do município

O dia 14 de janeiro de 2021 está marcado na memória dos amazonenses que viram desesperadamente o oxigênio acabar nos hospitais e seus parentes e amigos partirem sem o insumo essencial na luta contra os casos graves de Covid-19. Um ano depois, o sentimento dos familiares das vítimas é de saudade e de revolta contra a impunidade.

O professor universitário José Otoni Raposo Diógenes, lembra o sofrimento de não conseguir oxigênio para o cunhado, que estava no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto. “É um sentimento de descaso, de abandono por parte do Governo do Amazonas, claro, em consonância, com o governo federal. Eles continuam com a mesma ação em forma negacionista”, disse Otoni.

Otoni classificou como homicídio praticado pelo Governo do Amazonas contra o seu cunhado, que morreu aos 52 anos de idade. “A família não entrou e não entrará na Justiça para denunciar esse situação de homicídio mesmo por parte do Governo do Estado. Porque realmente negligenciou de forma absoluta o oxigênio. Meu cunhado faleceu no 28 de agosto. Ele passou 15 dias internado. Morreu no décimo quinto dia de internação. E nós lutando aqui fora, querendo dar suporte, e o hospital dizendo que ‘não tem problema nenhum, não tem falta de oxigênio’. E depois ficou claro que a causa principal da morte dele, claro, ele foi infectado pelo vírus, mas foi a falta de assistência, principalmente do oxigênio”, declarou.

O funcionário público Euros Maia, que à época postou um vídeo que viralizou nas redes sociais denunciando a morte do seu sobrinho, de 19 anos por falta de oxigênio hospitalar no Hospital 28 de Agosto. No vídeo, ele chamou o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), de “cleptomaníaco”.

Nesta semana, ele disse: “Nossa família foi uma das vítimas da ganância e incompetência de um governo. Agora, no dia 24 de janeiro, vai fazer um ano que nós perdemos uma pérola da nossa família, João Vitor Cavalcante, 19 anos, que infelizmente faleceu em decorrência da Covid-19, por falta de oxigênio. Na madrugada do dia 24, faltou oxigênio no 28 de Agosto, eles precisaram reduzir a carga de oxigênio para todos os pacientes, e infelizmente meu sobrinho de 19 anos não resistiu”, relembrou Euros.

Euros declarou, ainda: “Porque senão bastasse um governo extremamente corrupto, que é capaz de no auge da primeira onda comprar respiradores superfaturados em uma loja de vinhos, ele é também é um governo completamente incompetente. E o que me revolta é que nada derruba este governo. A impunidade é absurda. Meu sobrinho se internou no dia 4 de janeiro no 28, com os pulmões comprometidos. Eu me internei no dia 5 de janeiro, mas num hospital privado com 70% dos pulmões comprometidos e evoluíram a 90%. Nós nos internamos praticamente ao mesmo tempo, e o protocolo utilizado no hospital privado foi perfeito, porque dez dias depois eu já estava em casa, recuperado. E o meu sobrinho não voltou para casa”.

Coari

A cena emblemática de caixões em cima de um caminhão na frente do Hospital Regional de Coari (AM), no dia 19 de janeiro, ainda gera indignação ao técnico em eletrônica Ozaías Melo, que perdeu o tio, um dos sete pacientes de Covid-19, vítimas da falta de oxigênio hospitalar no município.

“O sentimento é como se tivessem arrancado um pedaço da gente. O sentimento é como se tivessem assassinado. E foi isso que aconteceu, um verdadeiro massacre, um assassinato em massa. Esse é o meu sentimento, e creio que todos pensem assim. O meu tio era cheio de vida, gostava de viajar, inclusive, veio para Coari veio para o aniversário da minha avó. Ele foi arrancado da gente”, disse.

Ozaías e a família aguardam uma resposta na Justiça sobre a responsabilidade pela falta de abastecimento de oxigênio que resultou na morte do tio. “A gente sabe que o governo estadual falhou, reteu os cilindros que vinham para Coari, brincou com a vida e deu nisso aí. Entramos na Justiça, está na mão da Justiça e contamos que a Justiça seja feita”, disse, lembrando que a sogra de um primo seu, também foi uma das vítimas da falta de oxigênio hospitalar.

Transferência
À Folha de São Paulo, o funcionário público José Augusto Silva da Costa, 66, disse que convive com as sequelas que deixaram limitações musculares nas pernas dele e com a revolta pelos que morreram por falta de leito e oxigênio.

Segundo a reportagem, o servidor falou que sobreviveu à doença porque foi transferido para outro estado quando o Amazonas colapsou. Lembra que ficou internado dois dias numa cadeira de rodas no corredor de uma unidade de pronto atendimento em Manaus, com falta de ar e fraqueza, até a transferência para Natal.

“Vi duas pessoas morrerem ao meu lado (em Manaus). Vi se debaterem com falta de ar. Pensei que ia morrer também. Oro de joelhos agradecendo por ter conseguido sair daqui. Muitos não tiveram a mesma sorte”, lamenta.

“Meu sentimento é de revolta, de raiva. É inadmissível faltar oxigênio. Tinha aqui na Venezuela. Por que não trouxeram antes de faltar? Esses caras trazendo cloroquina para cá. Brincaram com a vida do povo. Esse governador foi irresponsável e o presidente mais ainda”, comentou à Folha.

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