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Amazonas

Poluição: estudo detecta contaminação por medicamentos nas águas dos rios da Amazônia

Nos córregos urbanos, as concentrações chegam a ser cem vezes maiores do que nos rios principais.

De acordo com o estudo, o Rio Negro foi o curso d’água que apresentou as menores taxas de contaminantes. (Foto: Ivo Brasil, CC0, via Wikimedia Common)

De acordo com descobertas publicadas no ano passado, grandes rios como o Amazonas e o Tapajós, além de seus afluentes, estão altamente contaminados com produtos farmacêuticos, incluindo analgésicos, antibióticos e anti-inflamatórios. Nos córregos urbanos, as concentrações chegam a ser cem vezes maiores do que nos rios principais. Esses resultados vêm do Projeto Silent Amazon (Amazônia Silenciosa), cujo objetivo de longo prazo é criar um conjunto de dados completo documentando a situação da poluição química do Rio Amazonas.

“Nosso objetivo era quantificar a atual ocorrência, exposição e os riscos de um grupo de contaminantes que costumam ser pouco estudados nas regiões tropicais. O que vemos é que as pressões demográficas e a falta de saneamento e tratamento de água permitem que eles atinjam áreas de grande valor ecológico”, diz Andreu Rico, ecotoxicologista do IMDEA Water Institute e pesquisador-chefe do estudo.

A equipe do estudo coletou amostras de água em 40 pontos ao longo de 1.500 quilômetros dos rios Amazonas, Negro, Tapajós e Tocantins, e em pequenos afluentes que passam pelas cidades de Manaus, no Amazonas; Santarém e Belém, ambas no Pará; e Macapá, no Amapá, para avaliar a presença de 43 produtos farmacêuticos e outros contaminantes urbanos.

Quarenta desses produtos foram encontrados acima do limite de detecção (a maior concentração de um poluente que pode ser revelada pelo método analítico). Além das medicações já mencionadas, antiarrítmicos, anti-hipertensivos, antidepressivos, antiepiléticos, ansiolíticos, hormônios (sintéticos e naturais) e fragrâncias foram identificados nos cursos d’água.

As maiores concentrações, contudo, foram de psicoestimulantes como cafeína e nicotina. “O número de substâncias foi consideravalmente mais alto nos afluentes que atravessam áreas urbanas (de 23 a 40 por amostra) do que no Rio Amazonas e seus principais tributários (de 9 a 17)”, diz o estudo. “A concentração [no primeiro grupo] foi, em média, cerca de duas ordens de grandeza maior do que aquelas medidas no segundo.”

Outro estudo, publicado em fevereiro de 2022 e realizado internacionalmente em 258 rios em 104 países, classificou o Rio Amazonas “a jusante de Manaus” como um “local com baixas concentrações de ingredientes farmacêuticos ativos (IFA), devido a “altos fluxos fluviais com um grande componente de diluição”.

As amostras para este estudo foram feitas exclusivamente no leito principal do Amazonas, então as concentrações foram mais baixas do que no estudo da Silent Amazon. Águas da Amazônia estão cada vez mais poluídas Entre os contaminantes encontrados pela equipe da Silent Amazon está a metformina, a medicação mais comumente prescrita para tratar a diabetes tipo 2, e medida pela primeira vez nas águas superficiais da América Latina neste estudo. “As concentrações nos córregos de Manaus e Belém constituem os valores máximos reportados na literatura até agora.”

De acordo com a investigação da Silent Amazon, as maiores ameaças aos organismos aquáticos nas águas analisadas podem ser o paracetamol (analgésico que pode causar alterações genéticas e prejudicar a reprodução de invertebrados aquáticos e peixes), o estrogênio (um esteroide que contribui para a feminização dos peixes), o ibuprofeno (anti-inflamatório que tem impactos negativos sobre a reprodução dos peixes), e o 17β-estradiol (hormônio estrógeno natural com alto potencial de toxicidade).

“Em vista dos resultados, podemos concluir que os produtos farmacêuticos contaminantes estão espalhados pela Bacia Amazônica e que as áreas urbanas contêm concentrações que podem resultar em efeitos a longo prazo para um grande número de espécies aquáticas, entre 50% e 80%”, diz o pesquisador-chefe. Andreu Rico lembra que estes não são os únicos poluentes que estão afetando a biodiversidade aquática da Bacia Amazônica.

“A descarga de matéria orgânica [dos esgotos] e de metais pesados são importantes causadores da deterioração ambiental, bem como os agrotóxicos, microplásticos e PAHs”, um composto químico cuja principal fonte é a fumaça e a fuligem produzidas quando combustíveis sólidos, como a madeira, são queimados. O rápido crescimento da população urbana da Amazônia Legal brasileira e a falta de saneamento básico explica boa parte do atual estado de poluição da água.

Nos últimos 50 anos, a população de grandes cidades amazônicas (com cerca de dois terços da população total da região, 28,1 milhões de pessoas), mais que dobrou. A coleta de esgoto é a mais baixa do país, com cobertura de apenas 22,8%.

De acordo com o Ranking do Saneamento 2021, publicado pelo ITB, das 100 maiores cidades brasileiras, Manaus, Santarém, Belém e Macapá estão entre as 20 piores do país em termos de saneamento – respectivamente, nas posições 89, 95, 96, e 100 do ranking.

As informações são da coluna Notícias da Flores do site UOL.

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