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Amazonas

No interior do Amazonas, pandemia zera estoque de oxigênio e expõe indígenas a infectados, diz BBC

Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), 110 indígenas já morreram de covid-19 no país, e houve casos registrados em 53 etnias.

Reportagem da BBC, publicada nesta sexta-feira, com base em depoimentos de médicos e enfermeiros que atuam no município de São Gabriel da Cachoeira, mostra a gravidade da pandemia no interior do Amazonas, onde ficam 13 das 20 cidades brasileiras com a maior proporção de moradores infectados.

Sem qualquer caso de covid-19 até 26 de abril, São Gabriel da Cachoeira já é a 15ª da lista, com 999 registros por 100 mil habitantes. Desde então, morreram, ali, ao menos 15 pessoas de covid-19.

Líderes comunitários afirmam que o número de mortes é provavelmente maior, pois nem todos os doentes que apresentaram sintomas foram examinados antes do óbito. Foi o caso, por exemplo, do artista plástico Feliciano Lana, de 83 anos, que morreu na comunidade São Francisco em 12 de maio.

O avanço da doença pelo município, localizado na fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, expõe ainda a chegada da epidemia a uma das etapas mais temidas por especialistas: o espalhamento do vírus entre comunidades indígenas, diz a BBC.

Indígenas são considerados especialmente vulneráveis à covid-19 por conta de hábitos que tendem a facilitar os contágios, como o compartilhamento de objetos, e da frágil assistência médica em seus territórios. Mesmo antes da epidemia, doenças respiratórias já eram a principal causa de morte entre os grupos.

Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), 110 indígenas já morreram de covid-19 no país, e houve casos registrados em 53 etnias.

Os registros de covid-19 em São Gabriel da Cachoeira se concentram na zona urbana, mas equipes de saúde têm atendido cada vez mais casos nas aldeias.

Segundo os profissionais entrevistados, já houve ocasiões em que praticamente todos os membros da comunidade — dos mais jovens aos mais velhos — apresentavam sintomas da doença.

Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde, já houve 16 confirmações da doença em aldeias no Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro — região administrativa que engloba a maioria das aldeias no município de São Gabriel da Cachoeira —, das quais duas resultaram em morte. Em todo o país, diz a Sesai, houve 606 casos e 31 mortes de indígenas que vivem em aldeias.

A reportagem informa que, conduzida pelo barqueiro Jorge Gabriel da Silva, uma embarcação a serviço do Ministério da Saúde partiu da sede de São Gabriel da Cachoeira no fim de abril com cerca de 30 profissionais, a serem distribuídos entre unidades básicas de saúde (polos-base) da região.

A viagem durou cerca de uma semana. Na volta a São Gabriel da Cachoeira, o barqueiro apresentou sintomas de covid-19 e foi internado. O exame deu positivo e, em 6 de maio, ele morreu.

Dias depois da viagem, profissionais que haviam tido contato com Silva também começaram a adoecer.

O temor de que médicos e enfermeiros infectados na viagem estivessem expondo indígenas à doença fez com que a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) escrevesse uma carta ao principal responsável do Ministério da Saúde na região — o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Alto Rio Negro, Franklin de Souza Quirino.

No documento, enviado em 5 de maio, a organização questionou quais medidas vinham sendo adotadas em relação a profissionais com sintomas e se eles estavam sendo testados antes de entrar nas aldeias.

A BBC News Brasil fez as mesmas perguntas a Quirino e à Secretaria Especial de Saúde Indígena em Brasília, além de questionar quantos profissionais e indígenas tiveram contato com o barqueiro e se eles haviam sido isolados.

Não houve resposta, e a secretaria se limitou a mencionar uma expedição recente à região para a entrega de materiais hospitalares.

Médicos e enfermeiros ouvidos pela BBC News Brasil afirmaram que, no polo-base de Pari-Cachoeira, distrito onde vivem cerca de 4,2 mil indígenas, um profissional de saúde que teve contato com o barqueiro testou positivo para covid-19, e todos os outros membros da equipe apresentaram sintomas.

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