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Amazonas

Cientista da Fiocruz diz que retorno de aula presencial põe em risco vida dos estudantes

Alerta foi dado pelo epidemiologista Jesem Orellana, que defende retorno das aulas para março

As aulas presenciais na rede pública do estado estão previstas para o dia 14 de fevereiro – Foto: Seduc/AM

O epidemiologista da Fiocruz Amazônia, o cientista Jesem Orellana, destacou na noite desta segunda-feira (07/02) que o retorno ao ensino presencial na rede pública previsto para o dia 14 de fevereiro de 2022 põe em risco o bem-estar e a vida do estudante. Jesem questionou a entrevista da secretária de Estado de Educação e Desporto, Kuka Chaves, a uma emissora de TV, que classificou que o Governo do Amazonas preparou as escolas para a volta às aulas.

“O retorno ao ensino presencial em 14 de fevereiro de 2022 para crianças de 5-11 anos pode ser considerado precoce e põe em risco o bem-estar e até mesmo a vida do estudante e, também, de uma extensa cadeia de possíveis contatos, dentro (trabalhadores de educação em geral) e fora da escola (transporte coletivo, lanchonetes, lan house, p.e.), pois ainda há dezenas de milhares de pessoas não vacinadas ou incompletamente vacinadas no Amazonas. Ademais, é público e notório que o Amazonas, em especial o interior tem uma das piores coberturas vacinais contra a COVID-19 do Brasil, além de uma das mais negligentes experiências de gerenciamento epidêmico do planeta”, analisou o cientista.

Jesem Orellana refutou a afirmação da secretária de Educação que alegou que “há todo o preparo para todas as escolas” retornarem ao ensino presencial. “Lembramos que essa não era a realidade de nossas escolas em 2020 e 2021, e que não foi respondida à pergunta do repórter sobre eventuais melhorias dessas estratégias em 2022. Fala-se de forma genérica e evasiva citando EPI’s (equipamentos de proteção individual) e EPC (equipamentos de proteção coletiva). Mas, em momento nenhum se fala que máscaras de pano não protegem adequadamente nem quem usa e muito menos quem está no seu entorno, especialmente em ambientes pouco ventilados e pequenos, considerando o espaçamento mínimo entre mesas/cadeiras em sala de aula”, comentou o epidemiologista, completando. “Também não se fala sobre o monitoramento contínuo de instalação e adequado uso de dispensador de álcool gel móvel e de parede; tapete sanitizante; barreira de acrílico para mesa dos professores e espaços de atendimento ao público; pia móvel para lavagem de mão e preparo/manutenção de banheiros/refeitórios nas escolas. Quem estudou ou estuda em escola pública conhece bem estas deficiências”, disse Jesem.

Treinamentos
O cientista Jesem Orellana discordou também da afirmação da secretária que alegou que “as escolas não tiveram nenhum problema em 2021”. “Novamente, fala-se de forma vaga e improvável, pois é impossível que em centenas de escolas distribuídas em mais de 60 municípios não se tenha observado surtos e até mesmo doença grave e/ou morte por Covid-19 entre os frequentadores dessas escolas. O fato de o estado não ter comunicado a sociedade ou ter descoberto esses problemas, jamais pode ser entendido como a não ocorrência desses acontecimentos”, observou.

Jesem Orellana contestou também a afirmação da gestora sobre o poder de virulência da variante ômicron. “Sobre a declaração de que a Variante [ômicron] tem baixa carga de virulência, com base no que a ciência sabe até o momento, não há qualquer evidência sólida que suporte esta irresponsável afirmação, sobretudo quando é proferida por uma pessoa sem qualquer formação e base científica para tal. De fato, até o momento, as evidências sugerem que não há diferença significativa entre as cargas virais de indivíduos vacinados infectados com Ômicron e daqueles com Delta, por exemplo”, avaliou.

Casos
O cientista da Fiocruz Amazônia salientou ainda que há “clara rarefação de princípios elementares de controle de doença infecciosa em cenário pandêmico” por parte do Governo do Amazonas. “Portanto, quando se alega que estão ‘acompanhando dados do Comitê de enfrentamento à COVID-19’ e que ‘que há segurança que esses dados estarão bem mais baixos e sob controle’, isso não significa que estejam interpretando o cenário sanitário adequadamente. Ao contrário, a julgar pelas afirmações feitas, nota-se clara rarefação de princípios elementares de controle de doença infecciosa em cenário pandêmico. As razões são evidentes, pois o último boletim da FVS-RCP (07-Fev-2022) informa claramente que estamos com quase 120 pacientes em estado gravíssimo na UTI e mortes por COVID-19 às dezenas nas últimas semanas, além de dezenas de milhares de casos novos e positividades de testes muito altas (Fase Vermelha)”, disse. “Portanto, ainda distantes de possível controle epidêmico no Amazonas e em meio a 3ª onda, com o interior desassistido em termos de UTI e atendimento oportuno especializado para paciente Grave de COVID-19”, declarou Jesem.

Adiamento
Jesem Orellana sustenta que o Governo do Estado tem de adiar o retorno das aulas presenciais. “É um erro o retorno ao ensino presencial, na ausência de condições sanitárias seguras em termos epidêmicos e sem a garantia mínima de proteção para adultos vulneráveis com respiradores N95 (PFF2), por exemplo, ainda que tenham tomado dose de reforço, pelo simples princípio de que vacina sozinha não faz milagre. Ademais, no caso específico das crianças de 5-11 anos não há nem condições sanitárias seguras em termos epidêmicos e nem proteção vacinal robusta. Portanto, o Governo do estado do Amazonas deveria considerar adiar o retorno dos estudantes já vacinados com esquema completo para depois do dia 6 de março, assumindo que as de condições sanitárias seriam seguras e que teremos fartas evidências de que as escolas têm estrutura adequada e insumos que possam garantir não apenas ambientes seguros”, conclui o cientista.

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