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Amazonas

MPF quer criação de sistema nacional integrado para monitorar contaminação por mercúrio na Amazônia

Ação judicial requer também a implantação de um programa regional de monitoramento com abrangência nos estados do Amazonas, de Rondônia e de Roraima

Fotos: Chico Batata/Greenpeace | Paulo Basta/Fiocruz

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública para que a Justiça Federal obrigue a União, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e os estados do Amazonas, de Rondônia e de Roraima a criar e manter um sistema permanente, integrado e público de monitoramento da contaminação por mercúrio nos rios, nos sedimentos, nos peixes e nas populações que vivem próximo às áreas de atividades garimpeiras.

De acordo com o MPF, a atuação integrada deve ser implementada por meio de um sistema nacional com diretrizes para a medição do mercúrio e que reúna dados de todo o país; e um programa regional, com monitoramento das áreas de garimpo dos três estados e atuação na vigilância e no atendimento em saúde.

A ação do MPF destaca a inércia estrutural do Estado, que não tem rotinas padronizadas, capacidade laboratorial integrada ou banco de dados unificado para mensurar a evolução da poluição mercurial.

Antes de recorrer ao Judiciário, o MPF expediu recomendação aos órgãos de meio ambiente e de saúde das esferas federal e estaduais. Nenhum dos destinatários adotou medidas concretas com prazos definidos.

Entre as justificativas apresentadas pelos réus, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) condicionou ações futuras à disponibilidade orçamentária, enquanto o Ibama solicitou a reconsideração do pedido sob o argumento de que seu cumprimento esgotaria a capacidade operacional do instituto.

Enquanto os órgãos estaduais justificaram a falha apontando limitações técnicas e a ausência de testagem de mercúrio em suas amostragens, a ANA passou a responder ao processo por não incluir a medição do metal pesado entre os critérios mínimos da Rede Nacional de Monitoramento da Qualidade das Águas Superficiais na Amazônia, gerenciada por ela.

Atualmente, a única rede de monitoramento em operação na região atende apenas à Terra Indígena Yanomami, custeada por recursos do Supremo Tribunal Federal (STF) via ADPF nº 709. Fora dessa área, o MPF aponta que o poder público atua às cegas: não sabe onde a contaminação está, a que ritmo ela avança e nem quem precisa de proteção.

Impactos ambientais – O mercúrio metálico, liberado em escala pela lavra garimpeira de ouro, convertido em metilmercúrio nos rios, é absorvido por peixes e alcança, por meio da alimentação, milhares de pessoas que dependem do pescado como base alimentar.

Pessoa usando luvas brancas utiliza uma pinça cirúrgica para extrair uma amostra de tecido do dorso de um peixe sobre uma bancada de análise.

As provas e evidências reunidas pelo MPF vêm de laudos da Polícia Federal, de pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de universidades públicas dos estados e de levantamentos de organizações da sociedade civil, todos convergentes quanto à contaminação nas bacias dos Rios Madeira, Negro, Solimões, Branco, Uraricoera e Mucajaí.

Em Porto Velho, 26,1% dos peixes analisados apresentaram mercúrio acima do limite seguro, e a ingestão diária superou a dose de referência em todos os grupos da população: cerca de 8 vezes entre mulheres em idade fértil e 27 vezes entre crianças de 2 a 4 anos. Em comunidades ribeirinhas do Alto Solimões e do Alto Rio Negro, as concentrações médias registradas foram 17 vezes superiores ao limite recomendado.

Estudos apontam ainda que 21,3% dos peixes vendidos em centros urbanos da região estão acima dos limites da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, com contaminação 4 vezes maior em Roraima e 3 vezes maior em Rondônia e no Amazonas na comparação com o Amapá.

Outro ponto de alerta no cenário do garimpo é a diferença entre o quantitativo declarado de mercúrio comercializado legalmente e o estimado utilizado nas atividades. De acordo com nota técnica disponibilizada pelo Ibama, entre 2018 e 2025, foram vendidos legalmente 640 kg do metal em todo o país para uso em mineração de ouro, enquanto o consumo estimado apenas em Mato Grosso chegou a 25,8 toneladas. Ou seja, cerca de 98,5% do mercúrio comercializado tem origem do comércio ilegal.

Pedidos – Em pedido de urgência, o MPF requer que a Justiça determine:

  • • a criação de um comitê interinstitucional em 30 dias;

  • • a apresentação do plano de implantação dos dois sistemas em 120 dias;

  • • a inclusão do mercúrio entre os parâmetros medidos pela ANA na rede nacional de qualidade das águas em 90 dias; e

  • • a realização, em até 180 dias, da primeira campanha conjunta de coleta e análise de água, sedimentos e peixes nas bacias prioritárias.

A ação propõe uma estrutura em nível nacional e regional. O Sistema Nacional de Monitoramento da Contaminação por Mercúrio, a ser coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, fixará as diretrizes técnicas para medir o metal na água, nos sedimentos, nos peixes e nas pessoas, mantendo uma plataforma pública com os dados de todo o país e com publicação de relatório anual sobre a situação e as tendências da contaminação.

Já o Programa Regional de Monitoramento da Amazônia Ocidental alcançaria as bacias do Amazonas, de Rondônia e de Roraima com garimpo, com campanhas conjuntas do Ibama, da ANA, do Ministério da Saúde e dos órgãos estaduais, além de rotinas estaduais de vigilância em saúde. Os estados também deverão organizar a busca ativa de casos e o acompanhamento da saúde das populações mais expostas.

O MPF pede que a Justiça determine a implantação do sistema nacional em 12 meses e da plataforma pública de dados em 24 meses, com relatórios a cada 90 dias. A ação é uma atuação do 2° Ofício da Amazônia Ocidental, especializado no enfrentamento à mineração ilegal no Amazonas, no Acre, em Roraima e em Rondônia.

Ação Civil Pública nº 1048878-63.2026.4.01.3200

Com informações do MPF


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