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Brasil

Descoberta revela fósseis de dentes de tubarão em rochas com cerca de 10 milhões de anos no Alto Solimões

Achado é considerado surpreendente por ter sido registrado em uma área que atualmente corresponde ao interior da Floresta Amazônica.

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Uma descoberta que ajuda a reconstituir a história geológica da Amazônia foi liderada pela estudante de Ciências Biológicas da Unisinos Sthefany Pereira, estagiária do Instituto Tecnológico de Paleoceanografia e Mudanças Climáticas (itt Oceaneon), localizado no campus de São Leopoldo. Nas pesquisas que realizou durante a iniciação científica, a aluna identificou fósseis de dentes de tubarão preservados em rochas sedimentares com cerca de 10 milhões de anos, encontradas no interior da região amazônica. As informações são da Unisinos.

O achado reforça as evidências de que o bioma esteve conectado ao mar durante o período Mioceno, época geológica datada de 5 a 23 milhões de anos atrás, que marcou a evolução de ecossistemas modernos.

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Sthefany identificou fósseis de dentes de tubarão entre os sedimentos, um achado considerado surpreendente por ter sido registrado em uma área que atualmente corresponde ao interior da Floresta Amazônica.

A descoberta teve origem na reanálise de amostras de rochas sedimentares obtidas durante perfurações realizadas na década de 1970. O processo ocorreu durante o desenvolvimento do projeto Micro-CT, que utiliza a microtomografia computadorizada para criar um acervo digital tridimensional de ostracodes, pequenos microcrustáceos fósseis, que ajudam os pesquisadores a compreenderem como eram os ambientes do passado.

Na época, o material foi coletado pelo Projeto Carvão no Alto Solimões, iniciativa voltada à investigação de jazidas de carvão na Amazônia. Embora a prospecção mineral fosse o objetivo principal, a campanha resultou na coleta de um amplo acervo de sedimentos e rochas, que permaneceu preservado por cerca de cinco décadas.

Anos depois, os pesquisadores retomaram essas amostras e selecionaram parte do material para novas análises. No laboratório, as rochas passaram por um processo de preparação química para separar e preservar microfósseis e outros vestígios presentes nos sedimentos. Esse trabalho integrou a tese de doutorado de Lilian Maia Leandro, pesquisadora em geologia da Unisinos, que utilizou as evidências encontradas para demonstrar que a Amazônia foi parcialmente inundada por águas marinhas no passado geológico.

Foi durante a etapa de triagem e reanálise, em que os microfósseis são separados cuidadosamente do sedimento com o uso de microscópio estereoscópico, que Sthefany identificou fósseis de dentes de tubarão entre os sedimentos, um achado considerado surpreendente por ter sido registrado em uma área que atualmente corresponde ao interior da Floresta Amazônica.

“Foi uma surpresa muito grande. Nosso foco era estudar os ostracodes para compreender como era o ambiente da Formação Solimões, mas esse achado abriu uma nova frente de pesquisa e indicou que essas amostras ainda guardam muitas informações sobre a história da Amazônia”, destaca a estudante.

A pesquisa sobre os fósseis busca agora identificar as espécies de tubarão que habitaram a região e compreender o que elas revelam sobre as condições ambientais da época. Até o momento, parte dos fósseis já foi identificada preliminarmente como pertencente ao gênero Carcharhinus, grupo que inclui espécies como o tubarão-cabeça-chata. Já outros exemplares ainda passam por análises taxonômicas, processo científico de identificar, descrever, nomear e classificar os seres vivos em categorias hierárquicas.

A presença desses dentes indica que a Amazônia esteve conectada ao ambiente marinho durante o Mioceno. As análises são realizadas em amostras datadas do período Neógeno da Formação Solimões, unidade geológica da Amazônia que cobre principalmente os estados do Acre e do Amazonas, na região Norte do Brasil.

Segundo os pesquisadores, essa incursão marinha ocorreu entre aproximadamente 10 e 15 milhões de anos atrás, quando águas do mar avançaram sobre parte da Amazônia a partir da região correspondente onde hoje é a Venezuela. O fenômeno transformou temporariamente a paisagem e possibilitou a presença de organismos tipicamente marinhos no interior do continente.

Novas pistas

Agora, os pesquisadores buscam entender como esses dentes chegaram à Formação Solimões. Entre as hipóteses investigadas estão a possibilidade de os tubarões terem habitado a região durante períodos em que o mar avançou sobre a Amazônia, ou de os fósseis terem sido transportados e depositados por processos geológicos ao longo do tempo. Independentemente da origem, a descoberta pode ajudar a reconstruir a história da região amazônica entre 10 e 15 milhões de anos atrás.
“Além de ampliar o potencial científico das amostras, esses fósseis podem fornecer novas evidências sobre os ambientes que existiam na Amazônia durante o Neógeno. Cada novo exemplar encontrado ajuda a montar esse cenário e compreender melhor como essas mudanças ambientais ocorreram ao longo do tempo”, afirma Sthefany.

Também participaram da pesquisa os professores orientadores da estudante Marcos Antônio Batista dos Santos Filho, Bernardo Vázquez-García e Julia da Silva Pereira; Lilian Maia Leandro, que cedeu as amostras e orientou Sthefany nas discussões sobre a Formação Solimões; e o professor Gerson Fauth. Os resultados irão compor um artigo científico, que está em fase de elaboração. A pesquisa, que já foi apresentada na Mostra de Iniciação Científica (MIC) Unisinos 2026, será exposta durante a XXVII Paleo PR/SC 2026, um dos principais encontros da área de Paleontologia da região Sul.


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