Brasil
Crime organizado invade território Ashaninka, no Acre; lideranças denunciam e vão a Brasília pedir ‘socorro’
Avanço do narcotráfico, aumento de estradas ilegais e convergência com crimes ambientais na fronteira Brasil-Peru levam delegação indígena à capital para cobrar ações integradas de segurança e proteção territorial.
Lideranças ashaninka e kayapó durante viagem de barco no caudaloso rio Amônia, que segue até a fronteira com o Peru. (Foto:Domingos Peixoto / Agência O Globo/Reprodução)
Uma delegação de quatro lideranças do povo Ashaninka desembarcou em Brasília nesta quinta-feira (23) para cumprir uma intensa agenda de reuniões de emergência com o governo federal, exigindo uma resposta coordenada e binacional contra o avanço fulminante do crime organizado transnacional na fronteira entre o Brasil e o Peru.
A ofensiva , de acordo com o jornal O Globo, ocorre após um grave atentado registrado em 6 de julho de, quando homens fortemente armados invadiram a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no Acre, procurando lideranças tradicionais e espalhando o terror entre os moradores da aldeia.
O episódio que desencadeou a ida das lideranças à capital federal não foi um conflito pontual. No dia 6 de julho, a tranquilidade da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia foi severamente rompida por criminosos armados que buscavam intimidar os defensores ambientais do povo Ashaninka. Os indígenas contaram cinco criminosos que falavam em idioma espanhol, todos de capuzes no rosto e fuzis nas mãos.
A gravidade das ameaças levou à deflagração emergencial da Operação Ashaninka, mobilizando tropas do Comando de Fronteira Juruá/61º Batalhão de Infantaria de Selva (61º BIS) do Exército Brasileiro, em alinhamento com a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Acre (Sejusp) e o Grupo Especial de Operações em Fronteira (Gefron).
O jornal O Globo fez uma expedição em março de 2023 a aldeia Apiwtxa, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, e pôde comprovar o sucesso em unir preservação e sustentabilidade no território. No entanto, a reportagem já tinha ouvido relatos das lideranças sobre as constantes investidas e ameaças de traficantes, seja para construir estradas clandestinas, ou recrutar indígenas para trabalhar no cultivo da coca do lado peruano.
Embora a presença militar e policial no território após a invasão ocorrida no último dia 6 de julho tenha trazido um alívio momentâneo, as lideranças indígenas alertam que intervenções pontuais de segurança pública são insuficientes para conter uma engrenagem criminosa profunda e estruturada.
Ao jornal O Globo, Francisco Piyãko, coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), que está em Brasília com as demais lideranças, está preocupado com as invasões recentes e que a comunidade vive agora uma “tensão de guerra”.
— Enfrentamos pela primeira vez o narcotráfico unificado aos crimes ambientais em nosso território, mas a resposta do Estado não pode ser feita de missões pontuais; precisamos de presença permanente e cooperação internacional antes que a violência nos engula — afirma Piyãko
— Não estamos diante de um conflito local. Estamos diante da expansão de redes criminosas transnacionais sobre territórios indígenas que hoje representam uma das últimas barreiras à ocupação ilegal dessa região da Amazônia. Gastamos nossa energia em Brasília cobrando segurança pública quando deveríamos estar cuidando da nossa terra; o crime organizado usa a força porque impedimos que o Rio Amônia seja rota livre para o tráfico— completa.
A invasão reflete uma dinâmica que vem se consolidando ao longo dos últimos cinco anos com a convergência entre narcotráfico, exploração ilegal de madeira, mineração clandestina, grilagem de terras e lavagem de dinheiro. O epicentro da crise é o departamento peruano de Ucayali, onde a área destinada ao cultivo de folha de coca triplicou no último quinquênio, crescendo em ritmo duas vezes superior à média nacional do Peru.
“Estradas-vírus”
Esse modus operandi é impulsionado pela expansão das chamadas “estradas-vírus” — ramais e rodovias abertos clandestinos, sem licenciamento ambiental, sem estudos de viabilidade e sem consulta prévia às comunidades tradicionais, violando a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O caso mais emblemático é o da estrada UC-105, no trecho entre Nueva Italia e Puerto Breu (Peru). Mapeamentos técnicos do Projeto ABSAT, da Universidade de Richmond, revelam que o traçado da rodovia corta 241 cursos d’água que alimentam os afluentes do Rio Juruá e está cercado por pistas clandestinas de pouso, cultivos de coca e circulação constante de grupos armados. A infraestrutura rodoviária viabilizou a conexão direta de redes criminosas peruanas com o território brasileiro através de rotas fluviais, terrestres e aéreas.
Um corredor vital para a biodiversidade
O que está em jogo vai muito além da segurança de uma aldeia isolada. A Terra Indígena Kampa do Rio Amônia — reconhecida internacionalmente por seu modelo exemplar de gestão territorial, reflorestamento e monitoramento comunitário conduzido pelos Ashaninka — integra um dos mosaicos de conservação mais importantes da América do Sul.
Este corredor socioambiental abrange cerca de 3,5 milhões de hectares de floresta tropical contínua, abrigando 14 povos indígenas distribuídos em 35 Terras Indígenas demarcadas, além de três unidades de conservação de valor inestimável: a Reserva Extrativista Alto Juruá (a primeira RESEX criada no Brasil), o Parque Nacional da Serra do Divisor e a Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade. A terra indígena foi demarcada em 1992.
O crime ambiental é atualmente reconhecido como o terceiro mercado ilícito mais lucrativo do planeta, movimentando bilhões de dólares e operando em simbiose com os grandes cartéis de drogas. Para conter esse avanço, a Comissão Transfronteiriça Juruá/Yuruá/Alto Tamaya defende que Brasil e Peru abandonem abordagens puramente pontuais e construam um plano de ação binacional permanente, combinando inteligência financeira, patrulhamento transfronteiriço integrado e garantia inequívoca de direitos aos povos originários
Analistas socioambientais e lideranças Ashaninka apontam que o cenário atual de extrema violência contra defensores ambientais — dramaticamente simbolizado pelos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips em 2022 — é resultado de uma combinação fatal de fatores como o desmonte das instituições de fiscalização; o enfraquecimento das estruturas federais de proteção socioambiental e de combate ao crime durante a gestão anterior, que deixou lacunas históricas na fiscalização das fronteiras.
Efeitos da Pandemia de COVID-19 também são apontadas pelos ashaninka como o isolamento e a fragilização das comunidades durante o período pandêmico, aproveitados por grileiros e garimpeiros para avançar sobre áreas protegidas, além da pressão Infraestrutural desordenada e a insistência de governos estaduais e regionais de ambos os lados da fronteira na abertura de novos projetos viários e de integração sem o devido controle ambiental e de segurança pública.
O grupo de lideranças Ashaninka cumpre agenda nesta semana no Ministério dos Povos Indígenas (MPI), na Presidência da República, no Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), no Ministério das Relações Exteriores (MRE), na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e na Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).
— Construímos um modelo de sustentabilidade, proteção e autossuficiência que é referência mundial, mas o desmonte da fiscalização na fronteira transformou nossa rotina em uma rotina de tensão de guerra — conclui o líder Piyãko.
Mais uma fronteira sucateada
Há duas semanas, O Jornal O Globo revelou que o Ministério Público Federal (MPF) apontou, em uma ação protocolada contra a União na Justiça Federal, o sucateamento da Delegacia de Polícia Federal em Tabatinga (AM), na Tríplice Fronteira Amazônica — região que liga Brasil, Peru e Colômbia —, compromete investigações em uma área estratégica para o combate ao narcotráfico e ao crime organizado.
Documentos obtidos pelo jornal O Globo detalham falhas detectadas no trabalho da corporação no município amazonense, que vão da falta de pessoal e da ausência de fiscalização permanente na linha de fronteira a dificuldades na preservação de provas, em casos envolvendo o tráfico de drogas, e na cooperação com outros órgãos para monitoramento aéreo.
Em nota, a PF reconheceu os desafios operacionais em Tabatinga e afirmou que “a recomposição do efetivo está em curso, com a previsão de nomear novos delegados, escrivães e agentes a partir de meados de agosto de 2026, provenientes de cursos de formação”. A instituição informou que a delegacia foi contemplada, no Concurso de Remoção 2026, com vagas para agentes que já estão em atividade e que foram disponibilizadas vagas deste cargo para os alunos da última turma da Academia Nacional de Polícia (ANP). Para postos de delegado, escrivão, papiloscopista e perito criminal, a distribuição está em fase de validação.
A fronteira abriga as cidades de Tabatinga (Brasil), Letícia (Colômbia) e Santa Rosa do Javari (Peru), conectadas pelo Rio Solimões, e se transformou em uma importante rota do tráfico, com forte atuação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC). Para o MPF, a delegacia em Tabatinga não é só mais uma unidade policial, mas um braço estatal avançado em um território de 8,5 milhões de hectares na Terra Indígena (TI) Vale do Javari.
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