Brasil
Novo El Niño ameaça Amazônia antes da recuperação completa da última forte seca, aponta estudo
Publicação diz que 53,7% das áreas preservadas da floresta atingidas pela última seca podem levar mais de sete anos para recuperar os níveis anteriores de umidade e biomassa vegetal.
A Amazônia pode enfrentar um novo período de estiagem sem ter conseguido se recuperar totalmente da seca histórica registrada entre 2023 e 2024. A preocupação ganhou força após a confirmação do retorno do fenômeno El Niño, que costuma reduzir o volume de chuvas na região Norte do Brasil.
Um estudo publicado neste ano na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) estima que 53,7% das áreas preservadas da floresta atingidas pela última seca podem levar mais de sete anos para recuperar os níveis anteriores de umidade e biomassa vegetal.
Segundo os pesquisadores, sete anos é o maior tempo de recuperação registrado pela Amazônia nas últimas três décadas. A estimativa foi feita com base em análises de imagens de satélite dos últimos 30 anos, comparando indicadores como umidade da copa das árvores e quantidade de biomassa.
O levantamento mostra que a seca de 2023 e 2024 provocou uma das maiores perdas de umidade da vegetação desde o início das medições, em 1992, além de uma redução de biomassa acima da média histórica.
O período foi marcado pela combinação de dois fenômenos climáticos: o El Niño, que reduz as chuvas na Amazônia durante a estação chuvosa, e o aquecimento anormal das águas do Atlântico Norte, que intensifica a seca nos meses tradicionalmente menos chuvosos.
Especialistas afirmam que as mudanças climáticas, impulsionadas pela emissão de gases de efeito estufa, aumentam a frequência e a intensidade desses eventos extremos.
Entre os efeitos observados estiveram a queda acentuada do nível dos rios amazônicos. O Rio Negro registrou, em Manaus, o menor nível em mais de um século de medições, enquanto o Rio Solimões apresentou bancos de areia e diversos igarapés chegaram a secar.
Embora dados do MapBiomas indiquem que, em 2025, a superfície de água na Amazônia voltou a níveis superiores à média histórica graças à influência da La Niña, especialistas alertam que isso não representa uma recuperação completa do ecossistema.
Além do volume de água, é necessário avaliar fatores como a evapotranspiração, a capacidade das plantas de realizar trocas de carbono com a atmosfera e o restabelecimento da biomassa da floresta.
Pesquisadores afirmam que a repetição cada vez mais frequente de eventos extremos reduz o tempo disponível para que a vegetação consiga se regenerar completamente antes da ocorrência de uma nova seca.
De acordo com especialistas, a sucessão de secas pode provocar perda gradual de biomassa, redução da produtividade da floresta e menor capacidade de reciclar água e regular o clima da própria região.
Pesquisas anteriores também mostraram que, após a seca de 2005, a morte de árvores fez com que a Amazônia deixasse temporariamente de absorver carbono e passasse a emitir mais gases de efeito estufa, efeito que persistiu por vários anos.
Apesar disso, cientistas destacam que a floresta ainda apresenta elevada capacidade natural de recuperação. O maior risco ocorre quando as secas se somam a atividades humanas, como desmatamento, exploração seletiva de madeira e queimadas.
Segundo os pesquisadores, áreas desmatadas tornam a floresta mais vulnerável ao fogo e dificultam a infiltração de água no solo, reduzindo o abastecimento dos lençóis freáticos que ajudam a manter a vegetação durante os períodos de estiagem.
A substituição da floresta por áreas de agricultura e pecuária também reduz drasticamente sua capacidade de regeneração.
Os especialistas apontam que a porção sul da Amazônia, onde há maior avanço do desmatamento e uma transição natural para o Cerrado, tende a enfrentar os maiores desafios para recuperar os danos provocados pelas secas cada vez mais frequentes.
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