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Mais de 28 mil pessoas têm casas em risco de desabar após terremoto na Venezuela: ‘É duro perder tudo assim’

Milhares vivem em acampamentos improvisados aguardando inspeções em imóveis; equipes encerram buscas por sobreviventes e governo rebate críticas.

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Entre os que perderam completamente suas casas e os que tiveram moradias gravemente danificadas após terremotos devastadores atingirem a Venezuela no mês passado, o número de pessoas que precisam de abrigo cresce a cada dia. Em praças e parques da cidade turística de La Guaira, acampamentos improvisados multiplicaram-se uma semana após o desastre: ao todo, pelo menos 15,8 mil pessoas perderam tudo e outras 28,3 mil ainda não podem voltar para casa, embora as construções permaneçam de pé.

— É muito duro perder tudo assim, porque estamos em um país onde é preciso se esforçar três vezes mais para conseguir qualquer coisa — lamentou ao El País María Marquez, que passou as noites após o terremoto em dois dos 69 abrigos montados na área afetada.

O governo chegou a criar a Comissão de Avaliação da Habitabilidade de Moradias e Infraestruturas, colocando à frente o vice-ministro da Educação Universitária, Francisco Garcés. Também criou um Estado-Maior de Acampamentos Transitórios e Moradias e militarizou os abrigos destinados aos atingidos. No entanto, o grupo de inspetores que analisa os edifícios afirma estar sobrecarregado.

— Hoje subi o equivalente a uns 300 andares de escada fazendo inspeções em apartamentos — contou um engenheiro.

A falta de coordenação na resposta à emergência faz com que a assistência se concentre nos locais de acesso mais fácil, enquanto os que mais sofrem com a tragédia permanecem quase totalmente desamparados. Ao mesmo tempo, ainda não está claro qual será a política para atender os afetados pelo terremoto, meses após a violenta intervenção militar dos Estados Unidos, que, em tese, deveria pavimentar o caminho para uma transição política.

Últimos sinais de vida

Em La Guiara, um grupo de socorristas observava enquanto os sensores que antes detectaram sinais de vida sob os escombros já não registravam mais nada. Esta sexta-feira — o nono dia desde os terremotos que mataram quase 2,6 mil pessoas e deixaram dezenas de milhares de feridos no país — é o último dia das buscas por sobreviventes, com chances de encontrar pessoas vivas reduzidas significativamente.

A probabilidade de resgatar sobreviventes sob os escombros é maior nas primeiras 72 horas e diminui a cada hora que passa. O corpo humano pode sobreviver até sete dias sem água, mas, nesta semana, outra equipe de ajuda havia resgatado um homem de 43 anos que sobreviveu oito dias soterrado — feito celebrado como um milagre, depois que ele foi retirado debaixo de um edifício de sete andares que desabou.

A ajuda internacional chegou em grande escala à Venezuela, com equipes de 27 países. Um socorrista mexicano que trabalha em La Guaira afirmou que os equipamentos de sua equipe chegaram a detectar possíveis sinais de vida em outro edifício, mas não houve qualquer contato. Uma equipe dos Estados Unidos mobilizou cães farejadores e acionou um sensor de alta sensibilidade para detectar sons. Mesmo assim, nada foi encontrado.

‘Laboratórios midiáticos’

Quase 200 edifícios desabaram completamente nos terremotos, segundo números oficiais. Uma análise preliminar de dados de satélite, porém, indica que esse número pode ser muito maior.

Nas horas após os terremotos, vizinhos, familiares e voluntários correram para ajudar com picaretas e pás, mas seus esforços, que muitas vezes não foram suficientes, acabaram criticados pela presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez.

Em entrevista coletiva na quinta-feira, Delcy elevou o tom ao falar do que chamou de “laboratórios midiáticos”, que, segundo ela, tentaram provocar o caos nas estradas de acesso a La Guaira. Isso porque, nos primeiros dias após a tragédia, milhares de motociclistas, caminhonetes, caminhões e voluntários seguiram para a região na tentativa de ajudar, diante do desespero dos moradores para encontrar sobreviventes.

— A primeira narrativa criada em laboratórios midiáticos foi: “desçam todos para La Guaira”, para provocar o caos, impedir as operações de busca e resgate… Nós sabemos quem são e de onde partiram essas principais narrativas — afirmou, atribuindo o caos inicial não à mobilização espontânea dos venezuelanos, mas a motivações políticas.

A solução encontrada para os congestionamentos foi restringir o acesso apenas a pessoas autorizadas, mas a circulação continuou difícil, sem que houvesse, por exemplo, uma faixa exclusiva para veículos de emergência, como ambulâncias e equipes de resgate.

— A primeira decisão daquele dia foi militarizar o estado de La Guaira, porque não podíamos permitir que laboratórios midiáticos inviabilizassem as operações de busca e resgate. Miseráveis. Os laboratórios midiáticos que respondem a interesses partidários e políticos são miseráveis — declarou, sem citar a quem se referia.

Balanço oficial

Na mesma entrevista, Delcy buscou destacar a rapidez com que as decisões foram tomadas, apresentando uma cronologia detalhada. Segundo ela, a coordenação internacional foi acionada apenas três horas após o terremoto, na madrugada de 24 de junho, e, às 2h33, ela já havia determinado a mobilização de todas as equipes de resgate disponíveis, “sem distinção”. Ela também afirmou ter decretado a criação de um Estado-Maior de Emergência “poucas horas após a ocorrência” e dado instruções para o uso de equipamentos.

— Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e continuaremos fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance e mais — afirmou.

Questionada sobre a rapidez do envio das forças públicas, a escassez de agentes do Estado envolvidos nos resgates nas primeiras horas e a falta generalizada de recursos — de máquinas a canetas e papel para identificar os corpos —, ela sustentou que deu as ordens rapidamente e que o deslocamento de milhares de servidores públicos ocorreu de forma imediata. Delcy reconheceu, no entanto, que, em alguns locais, as equipes demoraram dois dias para chegar, atribuindo o atraso às estradas bloqueadas pelos próprios escombros.

Ainda assim, o tema voltou a ser abordado em outra das cinco perguntas permitidas durante a coletiva. Um jornalista afirmou que “poucos, ou ninguém”, compartilhavam da versão de que a resposta havia sido imediata, mencionou venezuelanos que se sentem “esquecidos” pelo governo e observou que os militares destacados eram vistos “com armas, e não com pás”. Mais uma vez, a presidente interina rejeitou a afirmação.

— Eu gosto de falar com dados. Também estive nos acampamentos e nos hospitais, onde recebi demonstrações de agradecimento — disse, antes de convidar o próprio jornalista a “ouvir as pessoas que estão agradecidas”.

Governo interino declarou a região do estado de La Guaira como ‘zona de desastre’

Perguntada sobre os necrotérios improvisados a céu aberto, a identificação dos corpos e a falta de espaço nos cemitérios, ela defendeu o rigor do governo na atualização do número oficial de mortos. E explicou que cada vítima passa por um processo de identificação por impressão digital ou, quando isso não é possível, por comparação odontológica forense, conduzida por uma equipe de médicos legistas em coordenação com o Serviço Nacional de Medicina e Ciências Forenses (Senamed), o Ministério Público e o Registro Civil.

— Ninguém vai para uma vala comum — concluiu.


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