Brasil
Amazônia recupera superfície de água após dois anos de seca, mostra MapBiomas
Embora a superfície de água no bioma tenha ficado 2,6% acima da média histórica no ano passado, a distribuição desse volume não foi uniforme, diz o estudo.
Água disponível na superfície da Amazônia voltou à normalidade em 2025. (Foto: Anderson Coelho/REUTERS/Reprodução)
Depois de dois anos críticos, a água disponível na superfície da Amazônia voltou à normalidade em 2025. A seca que provocou o isolamento de comunidades ribeirinhas, mortandade de animais, incêndios florestais e aumento de doenças foi superada pela volta das chuvas e pela recuperação dos rios no ano passado.
A conclusão é do MapBiomas Água, iniciativa de universidades, ONGs e empresas de tecnologia que monitora o uso da terra e as transformações na cobertura territorial do Brasil, e integra a nova coleção publicada nesta terça-feira (16/06).
A boa notícia sobre a Amazônia é recebida, porém, com cautela. Embora a superfície de água no bioma tenha ficado 2,6% acima da média histórica no ano passado, a distribuição desse volume não foi uniforme.
“Algumas bacias ficaram acima da média. Mas 20 delas, mesmo com essas condições normais de precipitação, ficaram abaixo da média em 2025”, afirma Bruno Ferreira, da equipe do MapBiomas e pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
A bacia do rio Negro é uma das que não se recuperaram. Distribuída no Brasil entre Amazonas e Roraima, a região foi severamente afetada pelas secas recentes. A sub-bacia do rio Trombetas, no Pará, também está nessa lista, cita Ferreira.
Em todo o território nacional, a superfície de água no ano passado ficou 5,3% acima da média em 2025. Houve um aumento de 10 mil quilômetros quadrados em relação ao ano anterior, chegando a 182 mil km². Mas, em comparação com o histórico das últimas quatro décadas, a área está diminuindo. Nos últimos 30 anos, é como se um lago natural do tamanho de Sergipe tivesse secado.
Pantanal em alerta
No Pantanal, maior planície alagável do planeta, a situação em 2025 foi de pouca trégua. Segundo o MapBiomas, todos os meses tiveram menos água do que o normal. Ainda assim, o cenário foi suficiente para amenizar o quadro devastador deixado pela seca histórica de 2024: os 6.790 km² cobertos por água em 2025 ficaram 34% acima do registrado no período anterior.
O bioma depende do regime de chuvas para além de seus limites. Aquelas que vêm da Amazônia e caem sobre os planaltos da região alimentam o chamado pulso de inundação, a principal característica ecológica do Pantanal. Esse ciclo de cheias e vazantes mantém o ambiente vivo e sua biodiversidade.
“Não houve um período de cheia nos últimos anos em todo o Pantanal”, lamenta Eduardo Rosa, coordenador de mapeamento desse bioma na iniciativa.
Os dados analisados mostram que a última grande cheia na região ocorreu em 2018, quando extensas áreas permaneceram alagadas por dois ou três meses. Desde então, o Pantanal não voltou a registrar inundações com a mesma intensidade.
O comportamento do rio Paraguai é determinante para essa dinâmica: quando seu nível ultrapassa a cota de quatro metros, suas águas extrapolam as margens e inundam áreas mais amplas da planície. Com mais de 2.500 quilômetros de extensão, ele nasce em Mato Grosso, passa por outros três países sul-americanos e funciona como uma estrutura central do Pantanal.
“Se há água chegando a todas as vazantes, existe a renovação da vegetação, há habitats para os peixes se reproduzirem e para os animais beberem água. E, quando temos um período muito seco, essa pulsação se inverte, e diversos fatores também se desencadeiam nesse processo, como o desconforto térmico, a falta de água, o aumento da vulnerabilidade e da ocorrência de incêndios”, pontua Rosa.
Nesse contexto, Corumbá, inserida no bioma no estado de Mato Grosso do Sul, é apontada como a cidade brasileira que mais perdeu superfície de água.
Ganhos e perdas
Depois da Amazônia, que concentra mais da metade da área coberta por água do país (61%), a Mata Atlântica vem em segundo lugar (11,6%). De 2024 para 2025, esse bioma registrou um leve aumento de área (+0,4%), totalizando 22 mil km² – mais da metade confinada a espaços criados pelo homem, como reservatórios.
O balanço também foi positivo no Cerrado (+0,4%) e na Caatinga (+0,5%) no período. No Pampa, a variação foi de -0,2%.
O MapBiomas analisa imagens dos satélites Landsat 5, 7, 8 e 9, registradas ao longo dos últimos 41 anos, para mapear a superfície de água. Os dados permitem ainda analisar os tipos de corpos hídricos: 76,7% da superfície de água mapeada é classificada como natural; 23,3% são antrópicos.
“Guardadas as devidas proporções, vemos que a tendência da água antrópica está subindo, principalmente nos pequenos reservatórios na Amazônia, que acompanham o avanço do desmatamento”, destaca Ferreira, citando como exemplos bebedouros para o gado, pequenas represas construídas em fazendas, pequenas barragens e também em hidrelétricas.
Impacto do El Niño
Com um El Niño de intensidade ainda incerta em 2026, impactos sobre a água são esperados em diversas regiões do país. O fenômeno altera a circulação atmosférica, cria áreas de alta pressão e descida do ar na atmosfera, o que aquece e inibe a formação de nuvens. Esse quadro normalmente intensifica a seca no Norte e Nordeste.
“A Amazônia já convive com secas mais frequentes e severas e, em períodos de El Niño, o risco é reforçado”, comenta a climatologista Karina Bruno Lima, pesquisadora visitante na Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha.
No Pantanal, pode ocorrer aumento das temperaturas, chuvas mais irregulares e intensificação da estiagem. O cenário pode prejudicar fortemente o bioma, que já sofre com a redução de áreas alagadas, aumentando ainda mais a chance de grandes incêndios.
“O El Niño não atua sozinho; ele se soma ao aquecimento global, que é o fator mais importante para o aumento das temperaturas e para a intensificação de eventos extremos”, alerta a cientista brasileira, ressaltando a necessidade de atenção, prudência e preparo do poder público.
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