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MPF instaura inquérito para apurar competição em busca de cidade mitológica perdida na Amazônia patrocinada pela OpenAI

O mito foi tema de pesquisas do explorador britânico Percy Harrison Fawcett, que desapareceu com o filho e um amigo no Alto Xingu em uma expedição há cem anos.

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O Ministério Público Federal (MPF) instaurou inquérito civil para apurar risco à integridade dos sítios arqueológicos localizados no Estado do Amazonas, em decorrência da competição “OpenAI to Z Challenge”, patrocinada pela OpenAI OpCo, LLC e suas afiliadas, com objetivo de localizar novos sítios arqueológicos na Amazônia.
mpf-instaura-inquerito-para-apO desafio foi lançado em 2025 e o nome faz referência à lenda da cidade perdida de Z, que alguns acreditam estar em algum lugar no Mato Grosso. O mito foi tema de pesquisas do explorador britânico Percy Harrison Fawcett, que desapareceu com o filho e um amigo no Alto Xingu em uma expedição há cem anos. E a OpenAI aproveitou a data de aniversário da trágica aventura para lançar o concurso, com a distribuição de US$ 450 mil (R$ 2,5 milhões) em prêmios.

“Agora, pela primeira vez na história, qualquer pessoa pode realizar pesquisas arqueológicas. A união de coleções de código aberto de imagens de satélite, mapas arqueológicos e histórias indígenas cria uma trilha de retalhos, que leva à possibilidade de novas descobertas que preenchem as peças que faltam no quebra-cabeça”, diz a página do desafio.

O inquérito do MPF considera que a iniciativa da OpenAI gerou controvérsias e críticas da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da Advocacia-Geral da União (AGU) e de outros órgãos e autoridades nacionais e internacionais, dentre as quais destaca-se:

i) Ignorou normas de pesquisa arqueológica, não consultando comunidades indígenas ou tradicionais sobre o uso de dados de suas terras;

ii) Visa extrair conhecimento e trabalho gratuito de voluntários para treinar seus modelos de IA, em um projeto que lembra a “busca por tesouros” em vez de ciência arqueológica;
iii) Confere risco ao Patrimônio Nacional, com a divulgação de coordenadas de sítios inexplorados, e ainda sem a devida proteção legal, que podem expor essas áreas ao saqueio e exploração ilegal.

No final do mês de maio, a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) encaminhou oficio de preocupação a autoridades, se manifestando a respeito da competição lançada em 15 de maio último pela OpenAI que visa premiar até três pessoas ou equipes, mediante o envio de dados sobre novos sítios arqueológicos na Amazônia, com ênfase na Amazônia brasileira.

De acordo com a SAB, a chamada da competição incentiva o uso de dados abertos (open source) de imagens de satélite ou LiDar e o uso de modelos IA para “escavar” dados digitais, afirmando que “agora, pela primeira vez na história, qualquer um pode conduzir pesquisa arqueológica”.

A SAB entende a chamada como extremamente problemática, podendo gerar desinformação e incentivar pesquisas ilegais, uma vez que a prática da pesquisa arqueológica é regulamentada no Brasil por órgão federal, o Iphan, assim como a profissão de arqueólogo que por lei é condicionada a obtenção de diplomas específicos e tempo de experiência na área.

“Lembramos que no momento a região tem sido palco de muitas notícias falsas sobre cidades perdidas com origens fantasiosas, visando minimizar resultados científicos de equipes profissionais qualificadas que vêm documentando a antiguidade das ocupações de povos indígenas na Amazônia e a importância destes para a preservação da Amazônia. A chamada para identificar novas “cidades perdidas de Z” por não arqueólogos só virá a contribuir para com este cenário de desinformação”, diz a nota da SAB.

Segundo a SAB, “mais preocupante ainda, é o fato de não mencionarem a necessidade de se realizar Consulta Livre Prévia e Informada junto às comunidades locais dos territórios pesquisados, inclusive para uso de dados de imagem de sensoriamento remoto, conforme previsto na Convenção 169 da OIT da qual o Brasil é signatário”.

“É sabido que muitos Povos Indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia têm tido seus territórios ameaçados por diferentes agentes, e o uso de dados sobre seus territórios para quaisquer fins que não tenham tido seu consentimento pode ter implicações prejudiciais irreversíveis para a sua segurança e sobrevivência”, afirma.

Em agosto de 2025, o Ministério dos Povos Indígenas pediu à OpenAI explicações sobre um concurso global organizado pela dona do ChatGPT para identificar sítios arqueológicos na Amazônia utilizando dados de código aberto. O governo brasileiro estaria “preocupado” com os efeitos da iniciativa.


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