Brasil
Jornalistas registram BOs após ameaças publicadas por Michelle Bolsonaro, em Brasília
Ao menos dois jornalistas registraram boletim de ocorrência devido a ameaças. Profissionais gravados já haviam sofrido ameaças de morte antes mesmo de Michelle divulgar o vídeo.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhou ontem, em seu perfil de Instagram, um vídeo feito por uma influenciadora bolsonarista que acusa jornalistas de “desejarem” a morte de Jair Bolsonaro (PL). Profissionais estão acompanhando, na área externa do hospital, atualizações sobre a internação e estado de saúde do ex-presidente.
Ao menos dois jornalistas registraram boletim de ocorrência devido a ameaças. Profissionais gravados já haviam sofrido ameaças de morte antes mesmo de Michelle divulgar o vídeo.
Influenciadora bolsonarista filmou jornalistas que estavam trabalhando em frente ao hospital DF Star onde Bolsonaro está internado. Gravação, tirada de contexto, foi feita no primeiro dia de internação, e nela a influenciadora critica os profissionais e insinua, sem provas, que eles teriam desejado a morte do ex-presidente. “Jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”, diz o texto no vídeo, sem provas.
Michelle Bolsonaro compartilhou ontem o vídeo com a informação falsa. Ela conta com mais de 8,1 milhões de seguidores e compartilhou o conteúdo na íntegra, sem adicionar nenhum comentário. A ex-primeira-dama acompanha Bolsonaro na UTI.
Repórteres expostos passaram a sofrer ataques nas redes e até nas ruas. Em um dos casos, foi divulgado um vídeo, feito com IA, sugerindo que uma jornalista fosse esfaqueada.
Em postagem no X, usuário chama repórter de “vagabunda”. “Vc é a vagabunda que ficou desejando a morte do Bolsonaro, né? Agora somos nós que desejamos a sua! E vc é repórter de rua, né? Que chato! O Brasil é um país tão violento!”, diz a publicação.
Outro jornalista recebeu postagem com ameaças a seu filho. Profissional, que não quis se identificar, acabou fechando as redes sociais e registrou BO sobre o ocorrido.
Sindicato dos Jornalistas e Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) divulgaram nota na sexta-feira, repudiando o episódio. UOL conversou com três jornalistas que estão avaliando quais medidas judiciais adotar.
Após notas de repúdio, a Polícia Militar procurou jornalistas. Profissionais foram orientados ontem a procurar equipe que está de guarda em frente ao hospital, caso ocorra alguma intercorrência. Não foram registrados novos episódios desde sexta-feira.
A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) soltou nota hoje sobre o ocorrido. Entidade afirma que fotos de filhos e familiares de repórteres vêm sendo utilizadas para intimidar profissionais e classifica episódio como “inadmissível”. “Esse tipo de ataque não é apenas uma ameaça individual — é um ataque direto à liberdade de imprensa e à democracia”, diz o texto.
A reportagem questionou tanto Michelle Bolsonaro quanto o hospital DF Star sobre o ocorrido e a postagem, sem retorno. O espaço segue aberto e o texto será atualizado, em caso de resposta.
Nota da Abraji, divulgada hoje:
“A Abraji repudia veementemente as ameaças, a difamação e a exposição violenta de jornalistas e seus familiares ocorridas após a divulgação irresponsável de um vídeo deturpado durante a cobertura da internação do ex-presidente Jair Bolsonaro, na sexta-feira (13), no hospital DF Star, em Brasília.
O vídeo, produzido por uma influenciadora bolsonarista, foi amplificado por parlamentares da extrema direita e pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que o compartilharam sem qualquer verificação, disseminando mentiras e expondo profissionais de imprensa que estavam simplesmente exercendo seu trabalho.
A partir dessa campanha de desinformação, jornalistas que apareciam nas imagens passaram a ser identificados e atacados nas redes sociais. As agressões não ficaram restritas ao ambiente digital: duas repórteres foram reconhecidas na rua e no transporte público e sofreram ataques presenciais. Foram produzidas montagens e feitos vídeos com uso de inteligência artificial, inclusive simulando que uma das profissionais é esfaqueada. Além disso, fotos de filhos e familiares dos jornalistas estão sendo usadas como instrumento de intimidação e assédio.
É inadmissível que parlamentares e figuras com espaço no debate público utilizem sua influência para orquestrar campanhas de difamação e incitar agressões contra profissionais de imprensa. Esse tipo de ataque não é apenas uma ameaça individual — é um ataque direto à liberdade de imprensa e à democracia.
Diretoria da Abraji, 15 de março de 2026
Nota da Abert, divulgada na sexta-feira:
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) repudia, com veemência, as ameaças e ataques virtuais dirigidos aos jornalistas que cobriam a internação hospitalar do ex-presidente Jair Bolsonaro, nesta sexta-feira (13), em Brasília.
Nada justifica tamanha violência contra profissionais da imprensa em pleno exercício da atividade jornalística.
A Abert reafirma a defesa intransigente da liberdade de expressão e do direito do brasileiro à livre informação e pede às autoridades locais uma rigorosa apuração do caso e punição dos agressores.
A Abert é uma organização fundada em 1962, que representa 3,2 mil emissoras privadas de rádio e televisão no país, e tem por missão a defesa da liberdade de expressão em todas as suas formas.
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