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Amazonprev manteve aplicações no Master mesmo com relatório apontando preocupações sobre riscos de investimento, informa O Globo

Relatório de diligência foi realizado em maio de 2025, seis meses antes de liquidação do Master.

A Amazonprev, responsável por gerir a previdência de servidores aposentados e pensionistas do Amazonas, manteve investimentos de R$ 50 milhões em títulos do Banco Master mesmo tendo recebido alertas apontando preocupações com aplicações. Seis meses depois do relatório, a instituição financeira comandada por Daniel Vorcaro foi liquidada pelo Banco Central, em novembro do ano passado, em meio às suspeitas de fraudes. As informações são de O Globo.

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Evilázio Nascimento (ao centro), presidente da Amazonprev, em visita de diligência ao Banco Master — Foto: Divulgação

Ao assumir a presidência da Amazonprev, em maio de 2025, Nascimento marcou uma reunião no Master para entender os detalhes das aplicações do fundo de previdência. Ele foi um dos cinco integrantes da Amazonprev a participar de “diligência de verificação de lastro” em cinco instituições financeiras credenciadas na entidade, dentre elas o Master. Na época, já eram conhecidos no mercado os graves problemas de liquidez do banco de Vorcaro, que tentava fechar um negócio com o BRB.

No relatório da diligência, obtido pelo O Globo, Nascimento e representantes do comitê de investimentos da entidade expressaram preocupação com as garantias sobre as aplicações no banco, dada a informação, na época, de que o passivo de curto prazo do Master era elevado, e também com a capacidade de resposta aos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas do estado e o Ministério da Previdência.

O documento destaca ainda que a divulgação do processo de negociação com o BRB acabou deixando a “impressão que o banco passava por dificuldades”. Outro ponto do documento afirmava que não havia “expectativa mais clara sobre os rumos do banco após a conclusão do processo de compra”.

O relatório produzido por Nascimento e a comitiva que visitou os bancos foi apresentado na reunião do comitê de investimentos, em junho. A ata do encontro relata que “chamou a atenção” a dificuldade da instituição em captar recursos em 2025 visando a rolagem da dívida no exercício.

“O Comitê reforça a necessidade de acompanhamento constante desses ativos, principalmente banco Master e C6 Bank, uma vez que, para essas operações não há registro em Ata ou processo com a demonstração de que foram cumpridas todas as diligências que mitigam o risco de crédito desses ativos”, diz a ata do encontro.

Apesar desses alertas, as aplicações no Master não foram revistas. No relatório de investimentos de novembro de 2025, mês em que o banco foi liquidado, há uma nota sobre o processo e a informação de que foi pedido ao liquidante a habilitação para o recebimento de créditos sem garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A habilitação é o primeiro passo para constar da lista de credores da instituição no processo de liquidação financeira do banco.

Procurado pelo O Globo, inicialmente Nascimento negou ter participado da diligência no Master. Confrontado com sua assinatura no documento e uma foto que o mostra em frente à fachada do banco de Vorcaro, em São Paulo, admitiu ter participado de reuniões, mas negou ter discutido investimentos
que, segundo ele, desconhecia.

— Fui participar para tomar conhecimento de como as coisas realmente acontecem, mas não tinha conhecimento da operação com o Banco Master. Tomei conhecimento desta operação da Amazonprev após o sindicato entrar com ação no Tribunal de Justiça do Amazonas sobre o assunto (em novembro de 2025). Foi quando eu tomei conhecimento, passei a me informar, reativei a sindicância, afastei os envolvidos do setor e estamos agora trabalhando no relatório — afirmou o presidente da Amazonprev.

Na semana passada, a Amazonprev foi alvo de uma operação para apurar a suspeita de aplicação irregular de R$ 390 milhões no Banco Master e outras instituições financeiras. Foram alvos três exdiretores da entidade.

Nascimento não foi alvo da operação da PF. Ele não estava à frente da entidade no momento do investimento de R$ 50 milhões em letras financeiras do Master, realizado em junho de 2024, sem registro em ata.

De acordo com o Manual de Políticas de Alçadas no Processo de Investimento do Amazonprev, o comitê de investimentos poderia autorizar investimentos ou desinvestimentos de até R$ 100 milhões, enquanto a
Diretorias de Administração e Finanças e a Presidência tinham alçada para até R$ 200 milhões. A partir disso, teria que passar pelo Conselho de Administração.

Jorge Boucinhas, professor de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV), afirma que, diante do risco, tanto o comitê quanto o presidente poderiam ter tomado a decisão de desinvestimento.

— Se eles tinham alçada para fazer o desinvestimento e foram alertados do risco, cumpria-lhes tomar alguma atitude.

Um analista que atua no setor, citada pelo O Globo, no entanto, pondera que se desfazer de investimentos desse tipo pode não ser tão simples e poderia causar prejuízo para o fundo. As letras financeiras são emitidas com prazo mínimo de dois anos e nem sempre têm opção de recompra. Para se desfazer da operação, os ativos teriam de ser vendidos no mercado secundário, com valores menores.


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