Amazonas
Polícia Civil faz operação para desarticular ‘núcleo político’ de facção criminosa no Amazonas
Esquema criminoso movimentou R$ 70 milhões em sete anos, utilizando empresas de fachada para comprar drogas na Colômbia e distribuí-las.
A Polícia Civil do Amazonas (PCAM) deflagrou, na manhã desta sexta-feira (20/02), uma operação contra um esquema ligado ao Comando Vermelho que, segundo as investigações, mantinha um “núcleo político” com acesso aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário no estado. Pelo menos 14 suspeitos foram presos, sendo oito no Amazonas.
Entre os presos está Anabela Cardoso Freitas, funcionária da Prefeitura de Manaus. A investigação indica que ela teria movimentado cerca de R$ 1,5 milhão para a facção por meio de empresas de fachada. Além dela, também há um servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas e ex-assessores de três vereadores.
Ao todo, a Justiça expediu 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão. Também foram autorizados bloqueio de contas, sequestro de bens e quebra de sigilo bancário. As ordens são cumpridas em Manaus e nas cidades de Belém (PA), Ananindeua (PA), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Teresina (PI) e Estreito (MA).
Segundo a polícia, a organização criminosa movimentou cerca de R$ 70 milhões em sete anos, o equivalente a aproximadamente R$ 9 milhões por ano desde 2018, e atuava em conjunto com traficantes do Amazonas e de outros estados.
As investigações apontam que os suspeitos facilitavam a contratação de empresas de fachada nos setores de transporte e logística. Na prática, essas empresas seriam usadas para comprar drogas na Colômbia e enviá-las a Manaus. Da capital amazonense, os entorpecentes seriam distribuídos para outras unidades da federação.
Os investigados devem responder por organização criminosa, associação para o tráfico de drogas, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Foram expedidos 24 mandados de prisão, dos quais 13 já foram cumpridos, além de 24 mandados de busca e apreensão. A operação também determinou o sequestro de veículos e de valores pertencentes aos investigados e a empresas fantasmas ligadas ao tráfico de drogas. Pelo menos 11 pessoas seguem foragidas, sendo sete no Amazonas e as demais nos estados do Pará, Piauí, Ceará, Maranhão e São Paulo. O líder do grupo, identificado como Alan Kleber, não foi preso e teria fugido às 3h da manhã em São Paulo, onde a esposa dele acabou presa pela Polícia Civil paulista.
Veja abaixo quem são os oito presos no estado:
Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas. A polícia aponta que ele recebia pagamentos para fornecer informações sigilosas de processos em segredo de Justiça, o que teria beneficiado o grupo criminoso.
Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas. Relatórios de inteligência financeira indicam transações milionárias ligadas ao esquema;
Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil que integra a Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e foi chefe de gabinete do prefeito David Almeida. A investigação diz que ela teria movimentado cerca de R$ 1,5 milhão em favor da facção por meio de empresas de fachada;
Alcir Queiroga Teixeira Júnior – investigado por participação no esquema financeiro que movimentava valores suspeitos para a organização criminosa;
Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar de vereador, apontado pela polícia como parte da rede de influência do grupo;
Osimar Vieira Nascimento – policial militar preso sob suspeita de envolvimento com as atividades do núcleo político investigado;
Bruno Renato Gatinho Araújo – preso no Amazonas e incluído na lista de investigados pela operação.
Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara por suposta participação no esquema.
As investigações apontam que o grupo adquiria drogas em Tabatinga para distribuição em outros estados, utilizando empresas fantasmas do segmento de logística para camuflar o transporte. Conforme a apuração, essas empresas não apresentavam movimentações compatíveis com a atividade declarada, mas mantinham negociações financeiras com servidores públicos. Há indícios de lavagem de dinheiro do tráfico e de intercâmbio financeiro com agentes em cargos estratégicos, incluindo ex-assessores parlamentares de vereadores, profissionais da área de advocacia, policiais militares e civis, além de servidores municipais e integrantes do Poder Judiciário.
De acordo com a Polícia Civil, a organização criminosa utilizava agentes públicos para garantir trânsito facilitado em órgãos e acesso a informações sensíveis. Em áudios e mensagens interceptadas, Alan Kleber afirmava que não temia ser preso porque “pagava todo mundo de todas as esferas” e orientava os comparsas a não se preocuparem. Ele também se apresentava como membro de empresa ligada a igreja evangélica e, em outra ocorrência, teria escondido drogas dentro de um templo religioso, estratégia que, segundo a investigação, servia para disfarçar as atividades ilícitas.
A corporação destacou que, até o momento, não há políticos com foro privilegiado entre os alvos da operação e que ainda será apurado se parlamentares tinham conhecimento da atuação dos assessores investigados. Um dos alvos possui ligação com processos de licitação em órgão público. A Polícia Civil afirmou que as investigações continuarão para aprofundar a identificação de responsabilidades e reforçou que a infiltração do crime organizado no serviço público representa um “câncer social” que precisa ser combatido para frear o avanço das facções nas estruturas estatais.
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