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‘Já era caro e ficou ainda mais’: preços de alimentos disparam no país de Maduro
De acordo com o BCV (Banco Central da Venezuela), a cotação do dólar neste fim de semana estava em 330 bolívares
A primeira semana da Venezuela sem Nicolás Maduro no poder foi marcada por incertezas e pelo acentuado aumento de preços de alimentos e de itens de primeira necessidade.
Para conter a onda especulativa, a presidente interina Delcy Rodríguez anunciou que apresentará à Assembleia Nacional um projeto de lei para “proteger os direitos socioeconômicos dos cidadãos”. Há risco de que a hiperinflação volte a assolar o bolso dos venezuelanos.
“Está tudo caríssimo. Não tenho como comprar alimentos com este benefício que ganho. Estou pedindo ajuda a amigos (para conseguir comida). Dias antes do que aconteceu (a retirada de Nicolás Maduro do poder) a caixa grande de ovos custava seis dólares. Agora está em oito dólares (o equivalente a R$ 42). Não dá. O que já era caro, ficou ainda mais”, afirmou uma professora de dança de 65 anos que recebe pouco mais de um salário mínimo e mora com o marido e dois filhos no centro de Caracas.
O cartaz de um açougue no Centro de Caracas demonstra os precos abusivos. Um quilo de carne para bife custa U$ 16 (o equivalente a R$ 86). Já o bofe, o corte mais barato, superou os dois dólares por quilo.
De acordo com o BCV (Banco Central da Venezuela), a cotação do dólar neste fim de semana estava em 330 bolívares. No paralelo, porém, chegou a ser cotada a 700 bolívares. Com isso, o salário mínimo da Venezuela que antes equivalia a três dólares agora despencou para cerca de 42 centavos de dólar.
“A cada dia os preços mudam por causa da cotação de dólar. É uma loucura. A gente tem que se organizar antes de sair para comprar. Estou me controlando para esperar baixar esta onda especulativa”, disse um homem de 47 anos que trabalha como mototaxista. Por corrida ele ganha cerca de U$ 5. “Preciso fazer pelo menos o equivalente a 50 dólares por dia ou não consigo levar comida para casa. Esta semana ninguém queria sair às ruas, todos com medo, e quase não trabalhei. Começo o ano com esse problema”, desabafou.
Hiperinflação em um país de vários câmbios
A onda especulativa reacendeu o medo da volta da hiperinflação na Venezuela. Entre 2016 e 2021 (já sob regime de Maduro) a instabilidade monetária assolou o bolso e gerou o empobrecimento da população. Os venezuelanos perderam poder de compra e o bolívar, a moeda nacional, cedeu espaço para o dólar, que passou a ser a moeda de fato do país.
“O colapso econômico da Venezuela está entre os piores da história recente do mundo”, chegou a afirmar em março de 2019 o Instituto Internacional de Finanças.
Com o bolívar cada vez mais fragilizado, há vários tipos de câmbio no país. O oficial, anunciado pelo BCV, é a cotação mais baixa e aplicada nos estabelecimentos comerciais. Há o paralelo, que rege a maior parte das transações feitas por ambulantes. Também há a média do dólar, cotação feita a partir da conta entre o valor do dólar oficial somado ao do paralelo.
Também há os que negociam em euros, mas a falta de troco impede que a moeda seja negociada amplamente como acontece com o dólar. Em cidades que fazem fronteira com o Brasil, até o real brasileiro é encontrado.
José Guerra, professor de economia venezuelano radicado nos Estados Unidos explica que “se não houver uma ação rápida o país vai rumo à hiperinflação. “Diariamente o bolívar está sofrendo uma desvalorização de 1,5%. Isso acontece porque não há dólares no país. As pessoas investem comprando moeda estrangeira ou comida. A brecha entre a cotação do dólar no paralelo e no oficial é de 100%”.
A desvalorização do bolívar não é novidade para o povo venezuelano. A queda de Maduro pouco mudou na forma de pensar da população quanto às economias. “O pouco dinheiro que tinha sobrando decidi comprar atum enlatado. Assim me preparo caso haja alguma situação diferente no país e gasto os bolívares. Se eu ficar com eles, amanhã já não servirão para nada”, contou um encanador de 58 anos morador de Petare, a maior favela da América do Sul, localizada no leste da capital Caracas.
De acordo com o economista José Guerra, só em janeiro a inflação na Venezuela deve subir mais 40%. Segundo a Bloomberg, o país fechou 2025 com 556% de inflação.
A volta do medo da escassez
As filas na frente dos supermercados horas após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos no último 03 de janeiro foram substituídas por corredores com poucos clientes.
“Semana passada comprei um quilo de Harina Pan por U$ 1,10. Ontem fui ao mercado e o mesmo pacote já custava U$ 1,45. Não sei onde vamos parar. Estou com medo de que a fome volte a bater à porta”, afirmou uma diarista de 36 anos e mãe de duas crianças.
Ainda é fresca na memória dos venezuelanos o período entre 2013 e 2019, quando a escassez de alimentos e de produtos industrializados assolou a população. Maduro precisou flexibilizar a importação a terceiros.
As informações são do UOL
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