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Amazonas está entre os nove estados brasileiros que confirmam sinais de trégua entre PCC e CV, aponta relatório do governo de SP

Levantamento da inteligência do governo de São Paulo foi obtido pelo jornal O Globo; novo ‘salve’ conjunto selou definitivamente a conciliação, diz.

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Nove estados brasileiros dizem ter identificado “sinais concretos” da suposta trégua entre as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), segundo relatório de inteligência da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, obtido com exclusividade pelo jornal O Globo.

Segundo o jornal, os dados foram coletados pelo governo paulista junto às inteligências das Polícias Militares de 26 estados e do Distrito Federal. Perguntados sobre a existência da suposta aliança entre as facções até então rivais, nove deles confirmaram a informação: Minas Gerais, Amazonas, Acre, Roraima, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas e Sergipe.

Além desses, outros nove estados afirmam não ter dados suficientes para endossar a existência do armistício, diz o documento. Em três deles, ainda há indícios de que a organização criminosa paulista permanece em guerra com a fluminense. Cinco estados não retornaram.

Os estados com evidências da aliança estão essencialmente nas regiões Norte (3) e Nordeste (5). Minas Gerais é o único de outra região do país que reportou a trégua.

Em apenas três estados do Nordeste não há sinais concretos da conciliação. São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraíba sustentam a manutenção da rivalidade entre os grupos.

“Salve” conjunto

Conhecidos como “salves”, os avisos de que agora é proibido matar integrantes da facção oposta e invadir território alheio começaram a pipocar por todo o Brasil na semana passada.

Na última terça-feira (25), um comunicado assinado pelo PCC e CV de forma conjunta selou de forma definitiva a trégua. O Globo informou que apurou que o comunicado circulou, pelo menos, nas periferias de estados do Norte, Nordeste e Sudeste, inclusive na cidade de São Paulo, berço do PCC. Um interlocutor da liderança da facção paulista confirmou a autenticidade à reportagem.

Na mensagem, os criminosos afirmam que “toda guerra, ao longo da história, teve início, meio e fim, e, graças aos esforços de muitos e a uma longa negociação, chegamos ao tão esperado fim”. O texto cita o dia 25 de fevereiro como “histórico”, data em que as organizações criminosas estão colocando fim à guerra e “refazendo uma nova aliança pelo bem comum”.

O comunicado ainda deixa em aberto o diálogo com outras organizações. “Incorporando ainda mais nossas fileiras nessa empreitada, lutaremos de mãos dadas por um só ideal, que é: o crime fortalece o crime”.

A veracidade do “salve” não foi confirmada pelas forças de segurança. O jornal informou que a autenticidade só ocorre com a prisão de algum integrante que confesse a trégua ou com a apreensão de documentos ou telefones de criminosos que contenham a mensagem. Em São Paulo, nenhuma apreensão do tipo foi feita.

Bastidor da trégua

A trégua entre o PCC e o CV, diz o jornal, teria sido costurada dentro dos presídios federais, por advogados dos líderes Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola, e Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP. As primeiras tratativas da conciliação ocorreram ainda em 2019, segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo.

A principal intenção do armistício é combater as regras impostas pelo Sistema Penitenciário Federal, onde estão presos os chefes de ambas as facções.

Um integrante do alto escalão do Ministério da Justiça afirmou jornal que o acordo se restringe ao campo jurídico, para derrubar as restrições dos presídios federais que os criminosos consideram injustas, como a impossibilidade de contato físico durante as visitas.

— É um acordo entre eles. Para atuar conjuntamente no campo jurídico e para um pacto de não agressão, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. Porque o Comando Vermelho tem franquias, então eles não podem garantir que nos outros estados vai ser assim. E quer saber? Isso ainda vai ajudar. Vai começar a diminuir o número de homicídios, porque eles param de se matar — disse.

A inteligência de São Paulo avalia que essa nova trégua é “requentada”, e não se estende a acordos comerciais, como o compartilhamento de rotas e fornecedores, diz o jornal.

A Secretaria Nacional de Políticas Penais (Sennapen) nega a trégua, e diz que está monitorando a situação. Um relatório de inteligência da secretaria diz que Marcinho VP classificou a notícia da trégua como “fake news”.

Em entrevista ao O Globo no ano passado, o promotor Lincoln Gakiya disse que a trégua vem sendo ensaiada desde 2019. Naquele ano, Marcola havia sido recém-transferido para o sistema federal, mais rigoroso, e foi procurado por advogados enviados pelo CV para tentar fechar um acordo. Assim como o chefe do PCC, integrantes da quadrilha rival também estavam sob o mesmo regime, que havia endurecido ainda mais as regras depois de receber integrantes da organização paulista.

Ao ouvir sobre o pedido de paz, Marcola teria respondido que o inimigo deles era o Estado, não o crime, e que eles deveriam, sim, se unir novamente.

Durante a negociação do armistício, representantes do CV pediram ao PCC para financiar ações jurídicas em benefício de ambos, com a contratação de juristas renomados para elaborarem pareceres que embasassem pedidos de redução no rigor do cumprimento das penas, como a volta das visitas fora do parlatório.

Gakiya afirmou que o PCC liberou, naquela ocasião, pelo menos R$ 10 milhões de seus cofres para pagar pareceres de juristas, custas judiciais e honorários de advogados. Eles atuavam não diretamente a serviço dessas facções, mas dissimulados sob a estrutura de ONGs ligadas a presos.

Ao menos 37 presos ligados ao PCC solicitaram transferência para cadeias que abrigam criminosos do CV no Rio de Janeiro, informa O Globo.

Os pedidos chegaram a ser formalizados na Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro (Seap-RJ). Os detentos, no entanto, voltaram atrás após terem feito a demanda.

O jornal apurou que o recuo ocorreu por receio de que familiares de presos poderiam sofrer represálias nas comunidades em que vivem suas famílias.


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